Rio - Woody Allen brincou que fez seu ‘crime sem castigo’ em ‘Match Point’ — inspirado no clássico ‘Crime e Castigo’ de Dostoiévski — e seguiu a mesma linha em ‘Scoop – O Grande Furo’. Em sua terceira incursão seguida usando Londres como cenário, insiste agora em ‘crime com muito castigo’ no ‘thriller’ irônico ‘O Sonho de Cassandra’. Um sonho modesto se comparado aos antecessores, que se concretiza mais pela sintonia de Ewan McGregor e Colin Farrell como os irmãos que se aventuram a chegar ‘lá’ e ficam no ‘quase, quase’, do que pelas surpresas da trama.
McGregor é Ian Blaine, ambicioso londrino que ajuda o pai a tocar o modestíssimo restaurante da família, enquanto pega carros de luxo na oficina do irmão para fingir que é ricaço e tirar onda com as garotas, como a aspirante a atriz (Hayley Atwell), por quem se apaixona. Ao contrário do expansivo Ian, o angustiado e reprimido Terry — feito por um total acerto de interpretação de Colin Farrell — demonstra sua compulsão através do jogo, enquanto trabalha como mecânico. Se dessa vez Allen não tem sua musa Scarlett Johansson, escalou o genérico visual Sally Hawkins, que faz a mulher de Terry.
Enrascados por dívidas de jogo do mecânico, os irmãos acham que a saída está no ricaço tio Howard (Tom Wilkinson). Mas esse também tem sua dose de problemas financeiros e propõe uma troca de favores desproporcional: dará o dinheiro que eles quiserem para pagar as dívidas se matarem um desafeto que vai denunciar suas falcatruas.
Mais é melhor não dizer, para não estragar a (pouca) graça do ‘castigo’ em seguida ao ‘crime’ dos irmãos. Nas referências de Allen, o ‘Sonho de Cassandra’ é o nome do barco que eles compram no início do filme, com o dinheiro de corridas de cachorro, e alusão ao mito de Cassandra, condenada a adivinhar o futuro e ninguém acreditar em suas previsões. Tragédia grega com sotaque ‘cockney’.
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