Rio - “Deixa a gente entrar só pra ver a cara da Ingrid Bergman!”, apelava o grupo de senhoras. “A gente senta no chão!”, imploravam os jovens de calça skinny e tênis All Star. Cercada, a gerente do Estação Paissandu, Luciene de Paula, explicava que a sessão de ‘Casablanca’ estava abarrotada, o ar-condicionado quebrado e seria perigoso deixá-los entrar. Não havia argumentos para convencer os sem-ingresso. Ninguém queria ficar de fora da maratona de 17 clássicos do que se anunciou como o último fim de semana do mítico cinema do Flamengo, após 44 anos de atividade e história.
Desde sexta-feira, milhares de pessoas formaram longas filas para ver filmes de Louis Malle, Truffaut e Fellini, entre outros. No primeiro dia, apenas o raro ‘O Atalante’, de Jean Vigo, teve ingressos esgotados. Sábado, três sessões ficaram lotadas e, ontem, já não havia ingresso desde as 15h. O clima de festa (ou de festival) ajudou o público a tolerar atrasos, calor na sala e problemas na projeção. Assobios e aplausos foram ouvidos menos nesses momentos e mais ao surgirem na tela artistas que resgatavam tempos áureos do Paissandu.
Alguns estavam ali atraídos pelo ingresso a R$ 1, mas muitos foram pela nostalgia. “Foi nas avant-premières de sábado que descobri o cinema francês, com filmes como ‘A Bela da Tarde’. Às 2h da manhã, isso aqui fervia”, lembra a aposentada Maria Thereza Maia, 68 anos, ratificando as palavras de Ruy Castro. Freqüentador da sala desde a inauguração em 1964, o escritor definiu a Geração Paissandu como turma que “incluía rapazes e moças radicais em arte, política e comportamento, embora alguns ainda tivessem de dar satisfações à mãe quanto à hora de chegar em casa”.
Protestos na porta
Trechos do texto de Ruy Castro foram usados, sem crédito, como justificativa para o projeto de lei que defende a preservação do cinema, encaminhado à Câmara Municipal pela vereadora Leila do Flamengo — segundo os donos do cinema, porém, o espaço será fechado, mas não vendido. Candidata à reeleição, ela recolheu mais de 4 mil assinaturas na porta do cinema e garantiu não estar ali em campanha.
A boa intenção da vereadora não convenceu o estudante Matias Lopez, 23 anos. “Absurdo mesmo é que não aceitam meia-entrada”, reclamou num arroubo típico da geração contestadora forjada no escurinho do Paissandu.