Rio - A exemplo de como Dercy Gonçalves levou seus 101 anos de vida, com alegria e irreverência, seus amigos, parentes e fãs fizeram questão de transformar o velório da artista em uma despedida animada, com muita música, poesia, palmas e até gargalhadas. A cidade onde nasceu, Santa Maria Madalena, na Região Serrana do Rio, parou, ontem, para receber o corpo da atriz, que saiu de cena, sábado, vítima de insuficiência respiratória.
Pelas ruas do pequeno município, com pouco mais de 11 mil habitantes, estão espalhados cartazes e faixas com fotos e mensagens em homenagem à artista. Ontem à tarde, uma multidão aguardava a chegada dos restos mortais de Dercy na porta do Clube Montanhês, no Centro de Madalena, onde o corpo é velado.
Na confusão, um homem, muito emocionado, passou mal e precisou de atendimento médico. Pouco depois, já recuperado, o fã José Carlos Ferreira Faria, 49 anos, voltou ao velório para dar o último beijo na artista, que conhecia desde criança.
A despedida foi embalada com música ao vivo durante todo o dia e à noite houve apresentação de um grupo de seresta. Pela manhã e no domingo, o corpo da atriz foi velado na Assembléia Legislativa do Rio (Alerj), onde artistas e autoridades foram dar adeus a Dercy. “Ela sempre foi minha amiga. A maior lembrança que fica é a dos palavrões”, contou o governador Sérgio Cabral. Outras 600 pessoas estiveram no local para prestar a última homenagem. De lá, o corpo seguiu em carro do Corpo de Bombeiros pelas ruas do Centro até a Leopoldina, onde passou para o veículo da funerária, que o levou até Madalena. Na saída, chuva de papel picado, jogado de prédios próximos.
Para a única filha, Decimar Senra, 73 anos, Dercy não era comediante e sim uma mãe rígida. “Ela era repressora, mas sempre foi a mãe que eu quis ter. Ela valorizava a virgindade, apesar das brincadeiras. Dizia: ‘Filha, faça o que eu digo e não o que eu faço. Não fale palavrão porque é muito feio”, emocionou-se Decimar.
MAUSOLÉU EM FORMA DE PIRÂMIDE
Pelas ruas da cidade serrana, o carro de som chamava para a última homenagem. Dercy Gonçalves será enterrada hoje, ao meio-dia, no mausoléu em forma de pirâmide que ela mandou construir em 1991 no Cemitério Municipal de sua cidade natal. A mais ilustre cidadã de Santa Maria Madalena será sepultada ao som da bateria da Unidos do Viradouro, como ela havia pedido.
“Ela sempre tratou a morte de uma forma muito lúdica, como tratava a vida. Por isso, organizamos o ‘palco’ como ela pediu para que ela fizesse seu último espetáculo. Só não deu para ela ir em pé no carro dos bombeiros como se estivesse acenando para o público, como queria”, disse, rindo, a sobrinha Lucy Freitas, 57 anos.
Antes do enterro, haverá missa, às 10h, em homenagem à atriz e ao dia da padroeira da cidade, Santa Maria Madalena. A Prefeitura decretou luto oficial por sete dias e cancelou o show de pagode que aconteceria hoje na cidade.