Rio - À primeira vista, pode não parecer. Mas Capitão Nascimento, de ‘Tropa de Elite’, Olavo, de ‘Paraíso Tropical’, e Hamlet, de Shakespeare, têm muito mais em comum do que sonha nossa vã filosofia. Para começar, os três são vingativos e seguidores da máxima de que ‘missão dada é missão cumprida’. Mas não é só isso, e quem explica é o intérprete dos três personagens: Wagner Moura.
“Olavo tinha o drama do pai que havia morrido e Capitão Nascimento era um cara focado, além de só usar preto”, explicou o ator, em debate quarta-feira, na Casa do Saber, na Lagoa, sobre a peça ‘Hamlet’, que ele encena em São Paulo sob direção de Aderbal Freire-Filho.
Diante de uma platéia de estudiosos e famosos, como a cantora Adriana Calcanhotto e a atriz Marieta Severo, Wagner lembrou seu primeiro contato com ‘Hamlet’, aos 15 anos. “Eu era um garoto que gostava de ler e na época já pensava em ser ator. Depois que li, ‘Hamlet’ se transformou numa peça inatingível. Pura bobeira, mas na época tinha coerência”, lembrou o ator. “Só depois de um bom tempo me dei conta que Shakespeare era um cara de teatro, que o bacana não é só ler, é fazer”.
A montagem de ‘Hamlet’, com cerca de três horas de duração, uma a menos que a versão original — “Mas todas as cenas estão lá, apenas cortamos algumas frases”, explica o ator — estréia em janeiro no Rio. “Sei que teatro jamais vai ser tão popular quanto a TV e o cinema, mas tivemos a preocupação de fazer um trabalho absolutamente acessível a todos sem perder a poesia”.
Risos e rasgação de seda
Durante a palestra, a famosa frase ‘Ser ou não ser, eis a questão’ foi discutida inúmeras vezes. E coube a Tonico Pereira, o Claudius da peça de Aderbal Freire-Filho, dar o ponto final: “Muito se fala e interpreta, mas pensar em Shakespeare é que nem pensar num bicheiro: vale o que está escrito”, disse o veterano ator, arrancando risadas de todos. Em outro momento, Aderbal soltou: “Conheço ‘Hamlet’ faz tempo, mas antes era só no papel. Agora, ele para mim é de carne e osso, é o Wagner”, disse ele, deixando o ator envergonhado.