Feijão preto ‘made in China’
Empresas importam grão e o revendem principalmente no Rio, maior consumidor do produto
Rachel Vita
Rio - Feijão preto com caldo chinês. Os empresários brasileiros buscaram a solução no Oriente para resolver a escassez do produto no mercado interno devido ao aumento no consumo e problemas na safra do País. De janeiro a julho deste ano, desembarcaram, segundo o governo federal, 23.729.661 quilos do produto, tendo como destino principal o Rio, responsável por quase 90% do consumo. No ano passado, chegaram ao Brasil apenas cinco toneladas do feijão preto ‘made in China’. Especialista estima, no entanto, que o volume comercializado em 2008 alcance 50 mil toneladas.
O preço do feijão preto, que disparou 147% nos últimos 12 meses, poderia estar ainda mais alto se não fossem as importações. Este foi um ano bem atípico para o produto, em especial o preto. Pela primeira vez, desde janeiro, começou a desembarcar o grão chinês no território nacional. Em 2007, por exemplo, esse movimento não ocorreu nos primeiros meses do ano.
De olho na alta do preço já em outubro do ano passado, alguns empresários miraram na China e acertaram em cheio. Na competição por mercados, como acontece com o restante dos produtos que vêm da China, os preços cobrados pelo feijão são inferiores aos da Argentina. Para o consultor de varejo Marcos Quintarelli, os chineses surpreenderam.
ARGENTINA É TOP
“Continuaremos a ter o feijão preto chinês nos pratos cariocas por algum tempo, pois a qualidade e o preço do produto surpreendem em relação aos demais”, avalia. Especialista em feijão da Conab (Companhia Nacional de Abastecimento), João Ruas explica que a qualidade do grão oriental melhorou muito, mas ainda é inferior ao da Argentina, considerado top de linha.
Segundo o diretor da corretora de mercadorias Correpar, Marcelo Lüders, as empresas que mais importaram foram Carreteiro, Feijão Máximo, KiCaldo e Bocabem. Lüders estima 50 mil toneladas este ano. “Agora, todo o feijão consumido no Brasil vem de fora”, diz.
SURPRESA NA PRATELEIRA: ‘ESSE NÃO É FALSIFICADO’, DIZ SECRETÁRIA
A secretária Angélica Rangel de Queiroz esticou o olho quando soube que o feijão que compra vem da China. “Esse não é falsificado. Não senti diferença”, conta. O consumidor desconhece a importação do produto. Não existe obrigação, pelo governo, de informar a origem do grão. Com a globalização, as empresas compram lá fora e empacotam o produto com as suas marcas.
O aumento da renda do brasileiro e programas como Bolsa Família aumentaram o consumo do feijão. O preto ganhou mais espaço no mercado do grão depois da alta ainda maior do carioquinha, que domina o mercado nacional. O consumidor buscou a substituição, mas a safra não foi boa devido à seca. Com a escassez do produto, o jeito foi importar mais, em especial da China.
Até a nova safra deve ter aumento
Depois dos seguidos aumentos e da chiadeira do consumidor, o governo investiu alto no incentivo à produção de feijão. A previsão é que a próxima safra, que começa a ser colhida em dezembro, seja bem maior que a deste ano. Mas até lá, apesar da desaceleração no preço nas últimas semanas, pode haver nova rodada de aumento. “Em setembro, outubro e novembro, a situação será delicada. A oferta interna não deve atender à demanda”, estima Marcelo Lüders.
O quilo do feijão, que já custou R$ 1,49, em maio de 2001, ultrapassou os R$ 4 este ano. Algumas redes de supermercados começam a baixar o preço ou a anunciar promoções. O Carreteiro pode ser encontrado a R$ 3,29, no Multi Market, e o Máximo e o Combrasil, a R$ 3,95.
Na briga por quem paga mais, o feijão perdeu espaço no campo. Segundo João Ruas, da Conab, o agricultor priorizou, em algumas regiões do País, o trigo e a soja, mais valorizados no mercado internacional. “Quase 11 mil hectares deixaram de ser plantados”, calcula.
Mais notícias...
|