BRASÍLIA - A boa rentabilidade da poupança ainda preocupa o governo. Em audiência na Comissão de Defesa do Consumidor, na Câmara dos Deputados, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, afirmou que a trajetória de rendimento da caderneta não pode ser diferente das demais aplicações. Segundo ele, com a queda na taxa básica de juros (Selic), os fundos de investimento têm tido remuneração menor — movimento que deve ser seguido pela poupança.
Por isso, lembrou, há alguns meses o governo alterou o cálculo da Taxa Referencial (TR), o que “diminuiu um pouco” o rendimento da caderneta. Mesmo assim, disse que o ganho continua atraente: “Ainda é um dos mais altos que temos”.
CAMPEÃO DE JUROS
Mantega advertiu que, se a poupança mantivesse o nível de rentabilidade enquanto as outras aplicações perdiam, haveria migração em massa, o que descaracterizaria o perfil do produto, voltado para o pequeno investidor. Alertou que não é desejável que as aplicações financeiras sejam altamente remuneradas: “O País que paga altos rendimentos não investe na produção”.
Mantega reconheceu que o spread (diferença entre o que os bancos pagam para captar recursos e o que cobram nos empréstimos) no Brasil é um dos maiores do mundo.
Segundo ele, o crédito consignado ajudou a reduzir um pouco o spread por ser uma operação com menor risco de inadimplência para os bancos. Admitiu que o País tem sido campeão mundial de juros, mas ressaltou que a situação foi herdada. Afirmou que a Selic está em queda há 15 meses e que a taxa projetada, daqui a um ano, já está ao redor de 10%.
TARIFAS ABUSIVAS
Mantega ressaltou que os bancos têm baixado os juros, mas vêm compensando a redução com o aumento das tarifas. E prometeu adotar medidas para defender o consumidor, sem antecipar quais. Pesquisa do Banco Central mostra que, de 1996 a 2006, a receita com tarifas passou de R$ 12,1 bilhões para R$ 47,5 bilhões, alta de quase 300%. No período, a inflação foi de 92,7%.
Presente à audiência, Henrique Meirelles, presidente do BC, defendeu que, como forma de estimular a queda das tarifas, é preciso aumentar a competição entre as instituições e reduzir a concentração no setor. Ele também quer dar mais facilidade aos clientes para que possam trocar de banco.
Depósitos voltaram a superar os saques
A caderneta de poupança teve, em maio, captação positiva de R$ 1,365 bilhão, de acordo com informação do Banco Central. O resultado é menor que os R$ 2,046 bilhões registrados em abril, quando a mudança na fórmula de cálculo da Taxa Referencial (TR) ainda não tinha entrado em vigor.
Em maio, os depósitos somaram R$ 84,748 bilhões e os saques, R$ 83,383 bilhões. Desde setembro de 2006, a poupança vem registrando captação positiva, maior período no real.
Para conter essa tendência, em março, o Conselho Monetário Nacional (CMN) aprovou medida para diminuir a rentabilidade da poupança e evitar que o investimento proporcionasse ganhos maiores que os pagos pelos fundos de renda fixa.
A mudança no cálculo da TR foi adotada após pressão dos bancos. O rendimento maior estava tirando aplicadores dos fundos, os grandes rivais na preferência do pequeno poupador que não quer riscos. Para os bancos, o dinheiro na caderneta é carimbado: 65% têm obrigatoriamente que ser destinados a financiamentos imobiliários. Nos fundos de renda fixa, ao contrário, os bancos têm liberdade para usar o dinheiro como quiserem. E o mais importante: cobrando quanto quiserem.
