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23/10/2007 01:24:00

Leite cru com soda cáustica

Polícia Federal prende 27 pessoas em Minas Gerais acusadas de ‘batizar’ em cooperativas o produto com substâncias que aumentavam volume e disfarçavam má qualidade de conservação

Rachel Vita


Rio - Depois de meses com preços nas alturas, parte do leite longa vida agora está “batizada”. A Polícia Federal prendeu ontem em Minas Gerais, 27 pessoas, na operação Ouro Branco, acusadas de adulterar o produto, em duas cooperativas, com substâncias que aumentavam seu volume e disfarçavam as más condições de conservação para que durasse mais tempo. Peróxido de hidrogênio (água oxigenada) e soda cáustica estavam presentes nas análises do leite ainda cru, impróprio para consumo humano, em laudo realizado por laboratório do Ministério da Agricultura.

A Polícia Federal decidiu recolher amostras de leite em todo o País dos compradores das cooperativas para analisar se o produto final, comprado pelo consumidor, chegou a ser contaminado. Segundo a PF, a Parmalat e a Calu (Cooperativa Agropecuária Ltda. de Uberlândia) estavam entre os compradores de leite cru das cooperativas Coopervale (Cooperativa dos Produtores de Leite do Vale do Rio Grande) e Casmil (Cooperativa Agropecuária do Sudoeste Mineiro), acusadas de “batizar” o produto. A Nestlé também teria comprado produto dessas cooperativas.

“A princípio, as empresas compradoras são vítimas”, esclareceu o procurador Carlos Henrique Dumont Silva. Segundo a polícia, responsáveis pela Coopervale e pela Casmil, que estão presos, admitiram a fraude, descoberta após denúncias. A “fórmula” de adulteração teria sido vendida para outras companhias no País.

A Casmil é acusada de adicionar peróxido de hidrogênio ao leite. A substância disfarça más condições de conservação. O leite da Coopervale também foi considerado impróprio para consumo. Para vender o produto, que chegava estragado dos produtores rurais, as cooperativas, segundo a procuradoria, usavam até soda cáustica. Entre os presos, além de diretores, estavam dois fiscais do Ministério da Agricultura e o químico autor da “fórmula”.

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) informou que não vai retirar leite do mercado porque o produto final ainda não apresentou irregularidade. Acrescentou, no entanto, que pretende monitorar o alimento, através de análises. A agência lembra que não constam nos rótulos do leite industrializado o nome das cooperativas acusadas de adulteração. Mas o consumidor deve avisar, através do e-mail alimentos@anvisa.gov.br, sobre aspectos diferentes no leite.

Substâncias são agressivas ao organismo

Pela estimativa da Polícia Federal, as fraudes aconteciam há dois anos. Especialistas alertam que as substâncias impróprias adicionadas ao leite causam efeitos nocivos ao organismo. O grau de intensidade vai depender da quantidade utilizada e da concentração no produto final. As causas mais comuns são queimaduras externas e internas. Por isso, caso surja algum sintoma, a orientação é parar de beber o líquido e procurar um médico imediatamente.

Para o químico e ex-produtor de leite Cesário Paulo Honório de Oliveira, da UFRJ, a mistura de água oxigenada e soda cáustica ao leite é altamente agressiva e pode causar úlceras no estômago e no intestino, se a bebida contaminada for consumida a longo prazo.
“Se a pessoa beber apenas um copo de leite, não vai sofrer grandes conseqüências. No entanto, se tomar esse leite por um mês, por exemplo, vai ter problemas maiores”, adverte Cesário Oliveira.

Segundo o pediatra Silvio Voscaboinik, da Sociedade de Pediatria do Estado do Rio de Janeiro, o peróxido de hidrogênio pode causar a redução do valor nutricional do leite.
Dependendo da quantidade, pode causar dores de estômago e até mesmo matar. O soro foi outra substância adicionada, bem acima do permitido. Já a soda cáustica pode queimar da boca ao esôfago e também matar. Os efeitos nas crianças podem ser bem maiores do que nos adultos.

Empresa diz que rejeita leite nocivo à saúde

A Parmalat informou por meio de nota oficial que não adquire produtos processados, envasados ou embalados nas fábricas da Casmil e da Coopervale. Confirmou que compra apenas leite cru dos produtores dessas cooperativas. “A Parmalat Brasil compra e recebe, diariamente, um volume superior a 2 milhões de litros de leite cru de mais de 5 mil produtores e cooperativas de todo o País”, esclarece a nota.

A empresa garantiu que mantém em suas fábricas processo de avaliação da qualidade do leite cru e que “rejeita qualquer carga de leite que contenha produtos nocivos à saúde do consumidor ou alheios à composição natural do leite”. Já a Nestlé declarou que não produz nem comercializa leite longa vida e que baseada em teste garante que não há risco no consumo dos seus produtos.

“Não há como saber, sem antes fazer uma análise, se o leite que está sendo vendido é impróprio para o consumo humano”, explicou o procurador Carlos Dumont, que participou da operação.



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