*Deonísio da Silva
Rio - Tenho duas profissões, ambas muito bonitas e com um quê de sacerdotal nas duas: escritor e professor. Assim como o passarinho canta e o sapo coaxa, eu escrevo. Como a ave e o batráquio, sem que ninguém me obrigue, me contrate ou me promova, sigo escrevendo, escrever é da minha natureza. Que outros digam se o sapo coaxa direito, se o passarinho canta afinado ou se eu escrevo com convém.
Para o segundo ofício, todavia, precisei estudar, sim, e muito! Desde a entrada na Faculdade, fui um trabalhador que estuda. O governo denomina de outro modo: estudante que trabalha. Como, se o meu principal ofício foi trabalhar para poder estudar?
Digo “ofícios” e não “profissões”. No Brasil, a profissão de escritor não é reconhecida. Ele não paga nada para ser escritor. Embora pague muitos impostos, nada recolhe à Previdência. Outros ofícios também nada recolheram e ainda assim se aposentaram pelo que fizeram. Quando o escritor é pago pelo que faz, recebe bem menos do que merece, como se fosse a mosca no açucareiro ou, melhor dizendo, de meu ponto de vista, o torrão de açúcar.
Como a profissão de professor, com boas exceções, é muito mal remunerada também, denomino ofício e não profissãoa docência, a maravilhosa arte de ensinar aos outros o que eles ainda não sabem ou ajudá-los a descobrir por si mesmos.
O livro é a figura solar nos dois ofícios, sem livro nada se aprende. Escrevendoou ensinando, estamos sempre na companhia de autores e livros, e isso é motivo de felicidade, embora não se deva ter obsessão pelo assunto, afinal a felicidade, como menstruação atrasada, um dia vem. E se não vem o sangue, vem a criança.
Por que haverá algo de sacerdotal nesses dois ofícios?O sagrado está em oposição ao profano. Sagrado era aquilo que era feito dentro do templo. Profano, o que era feito fora.
Não evitava as festas profanas da literatura, mas hoje eu as evito tanto quanto posso. Escritores que são referência mundial na literatura não se sairiam bem nesses eventos. Imaginem Cervantes, Camões, Shakespeare, Goethe, Dante etc nessas festas. E não porque sejam de outro tempo, mas porque são (existem) de outro modo. Eles seriam um fracasso de público. E Machado de Assis, então, que era gago!
Vivemos num mundo dominado pela mídia, que abomina o sagrado por não poder controlá-lo. Que outros se jactem do que fazem fora do templo. Quanto a mim, aprecio a solidão da sacristia leiga onde ora escrevo, embalado por músicas clássicas quesó podem ser ouvidas em rádios que dão traço de audiência.
Semelhando um passarinho, canto, ou melhor, conto todos os dias. Ele veio cantar em minha janela. Nós dois precisamos ganhar a vida. Ganhamosalguma coisa com nossa arte de cantar e contar?
Quanto ao sapo, o poeta Manuel Bandeira deu a resposta: “Longe dessa grita/ Lá onde mais densa/ A noite infinita/ Verte a sombra imensa;/Lá, fugindo ao mundo,/ Sem glória, sem fé,/ No perau profundo/ E solitário, é/ Que soluças tu,/ Transido de frio,/ Sapo cururu/ Da beira do rio”.
Todo escritor adora histórias de amor. Quanto mais complicadas, melhor para escrevê-las.
* O escritor Deonísio da Silva, Doutor em Letras pela USP, é professor e Coordenador Geral do Curso de Letras da Universidade Estácio de Sá.