Rio - O futuro está cada vez mais próximo para 176 adolescentes cariocas do 1º ano do Ensino Médio, que quarta-feira começarão a estudar no Núcleo Avançado de Educação (Nave), na Tijuca. A maioria dos alunos da ‘escola do futuro’ — que ensinará a criar jogos eletrônicos, vídeos, programas de rádio e técnicas voltadas para a TV digital — mora na Zona Norte e é de família de baixa renda. A expectativa de deixar para trás problemas como falta de professor e mergulhar em educação pública de Primeiro Mundo está mexendo com a cabeça deles.
“Estou empolgadíssimo! Não vejo a hora de começar. Vamos aprender várias coisas novas e divertidas”, revela José Carlos Pereira. Com 15 anos, ele já sabe o que quer e entende que está no caminho certo: “Quero trabalhar com algo que envolva muita tecnologia. Adoro videogame e vivo o dia inteiro no computador. Poder fazer isso na escola? Tem coisa melhor?”. Há um mês ele e os outros escolhidos participam, no Instituto Pão de Açúcar, no Andaraí, de oficinas de adaptação à pedagogia do Nave, batizado de Colégio Estadual José Leite Lopes e é fruto da parceria da Secretaria Estadual de Educação e a Oi Futuro. E todos já ganharam uniformes.
Os jovens, entre 14 e 15 anos, ainda estão surpresos e adoraram a idéia. “Ligaram para minha casa dizendo que eu tinha sido selecionado. Não entendi bem e fui fazer os testes. Depois que tivemos uma reunião com a direção do projeto percebi que estudar nesse lugar vai me dar a chance de fazer a faculdade que eu sempre quis: Design Gráfico. Meus pais nunca conseguiriam pagar um curso desses. Se eu continuasse onde estou, não teria a menor chance”, afirma Franklin Rodrigo da Silva, 15. Morador do Engenho Novo, ele começou o ano letivo no Colégio Estadual Herbert de Souza, na Tijuca, onde faltam professores de Religião e Filosofia.
A falta de aulas também preocupou Ademar Antunes, 15. Matriculado na Escola Estadual Amaro Cavalcanti, no Largo do Machado, ele afirma que desde o início do ano não tem aula de Geografia. “Onde eu estava antes (Escola Municipal Deodoro, Glória), também não tive professor de todas as matérias. Não tive Ciências e havia sempre horário vago. Acho que na nova escola será bem diferente. Sairemos mais bem preparados que a maioria dos alunos de escola pública. Além de professores, vamos ter laboratórios de última geração, coisa que nunca vi na vida”.
INAUGURAÇÃO SERÁ COM EXPOSIÇÃO GRÁTIS ABERTA AO PÚBLICO
Como O DIA antecipou domingo, o Colégio Estadual José Leite Lopes promete revolucionar o conceito de educação pública. A unidade da Tijuca será voltada para o Ensino Médio, com aulas em tempo integral. Este ano, serão 4 turmas de 1º ano com 176 alunos. Em 2010, serão 600. A inspiração veio do Centro Experimental Cícero Dias, no Recife (PE).
Os 14 professores serão da rede pública e venceram disputa que atraiu 600 mestres. Os alunos foram indicados de escolas da Z. Norte e passaram por avaliação psicotécnica e entrevistas.
Além das disciplinas tradicionais, o colégio oferecerá formação técnica com acesso à cultura digital, que inclui aulas de Programação de Jogos, Criação de Conteúdo para TV Digital, Desenvolvimento de Roteiros Interativos e Criação e Manipulação de Som e Imagem.
Na inauguração, haverá exposição de games com 9 obras interativas, entre elas instalação com 50 TVs de LCD com olhos em diferentes tamanhos e formas. A visitação será de 2ª a 6ª, das 11h às 17h, a partir de quarta. A entrada é grátis. Endereço: R. Uruguai 204, Tijuca.
ORGULHOSOS, PAIS FESTEJAM
Adolescentes animados e pais orgulhosos por os filhos estarem entre os poucos escolhidos para formar as primeiras turmas dessa escola do futuro.
“Meu marido até chorou quando recebeu a ligação com o resultado. Ele está muito feliz com essa conquista. A gente sabe que essa oportunidade é única e que vai mudar a vida da minha filha. Nunca poderíamos bancar financeiramente esses cursos todos, que ela terá de graça. Agora, é agarrar com unhas e dentes”, festeja a dona-de-casa Ilia Araújo Magalhães, 50, mãe de Raisa Magalhães, 14. O marido, formado em Geografia, trabalhava como motorista de ônibus, mas há dois anos está afastado de sua atividade devido a um acidente.
A ambulante Regina Messias, 52 anos, tem noção do passo importante que a filha, que ela criou sozinha, está dando. Mãe de Adriana Busquet, 15 anos, Regina se diz muito feliz com a vaga conquistada pela caçula.
“Estou radiante e realizada. Ela sempre foi boa aluna, muito dedicada”, diz a mãe coruja. “Sei que estou no lugar que muitos queriam. Vou fazer a minha parte para não decepcionar”, retribui a adolescente.