Rio - Revoltados com a greve dos professores da Uerj, que completará 60 dias amanhã, pais de alunos do Colégio de Aplicação (CAp) da universidade, no Rio Comprido, começaram a se mobilizar para tentar uma saída. Depois de se reunirem terça-feira na porta da instituição para lutar pela volta às aulas e disparar e-mails de repúdio à paralisação, o grupo com cerca de 20 responsáveis agendou para segunda-feira uma audiência com o reitor da universidade, Ricardo Vieiralves.
Pai de três filhas, o taxista Emanuel Bragança, 51 anos, se preocupa com a tristeza da filha Julia, 8, única que estuda no CAp. “Ela vê a irmã gêmea estudar e pede para mudar de escola. Tem hora que diz ter saudades e em outras quer sair. Imagina como está a cabeça dela?”, questiona o taxista.
Em greve desde o dia 15 de setembro, os professores alegam que estão há oito anos sem reajuste e exigem 66% de aumento, além do repasse de 6% da receita tributária líquida do estado — cerca de R$ 1 bilhão — para a universidade.
“As crianças estão sendo usadas. Manter o CAp em greve é uma arma para eles conseguirem seus objetivos”, reclama a psicóloga Bárbara Santos, 45, mãe de uma aluna de 8.
Mesmo reconhecendo que as reivindicações dos servidores são justas, Luiz Carlos Corcino, 47, não concorda com o fato de a pós-graduação funcionar e o CAp permanecer fechado. Segundo ele, desde 2006 os dias parados por greve já chegam a 150. “A estratégia está errada. É cruel deixar criança sem aula. Nosso filhos estão como moeda de troca”, reclama.
Depois de tantos dias em casa, os pais já notam mudança no comportamento dos filhos. “Minha filha está deprimida porque as amigas estudam e ela fica sem ninguém para brincar”, diz Bárbara. “Já noto que a Beatriz está ficando irritada, cansada de ficar em casa sem fazer nada”, completa Luiz Carlos.
Os pais de adolescentes também sofrem. Mãe de duas alunas, uma de 14 e outra de 16 anos, Jussara Marques se agonia com o ócio das filhas. “As meninas estão indo dormir de madrugada e saem durante o dia. Estou sempre preocupada”, conta Jussara.
PROFESSORES VOTAM PELA CONTINUIDADE DA GREVE
Em assembléia realizada ontem no auditório da Uerj, professores e funcionários decidiram que a greve continua. Cerca de 200 professores da universidade participaram da reunião e, com mais de 40 votos de diferença, votaram pela manutenção da paralisação.
A Associação de Docentes da Uerj revelou que tem obtido apoio junto a deputados na Alerj, mas se queixa de que as negociações com o governo estadual não avançam. A próxima assembléia está marcada para o dia 25.
Professor do CAp e pai de Joana, 14 anos e aluna da escola, César Alvarez concorda com a paralisação. “Minha filha está sendo prejudicada, mas eu penso em uma causa maior”, argumentou César. Ele vê a greve como a única forma de luta dos funcionários.
Já Valter Kohan, que dá aulas de Filosofia da Educação na Uerj, e tem duas filhas estudantes do CAp, discorda do movimento grevista. “Não existe justificativa para crianças sem aula por 60 dias”, diz ele.