TÉCNICOS AMIGOS E RIVAIS

Ao longo da carreira, o Baixinho já teve vários treinadores. E mesmo aqueles com quem brigou dizem que admiram o seu talento.

Romário fez cara de surpresa e, se não estivesse sentado no confortável sofá de sua casa, teria desabado com o susto: era informado de que Luiz Felipe Scolari — aquele que não quis levá-lo à Copa de 2002 — descartou a possibilidade de dar qualquer depoimento sobre o craque.

Mas o artilheiro ainda teria outra surpresa, dessa vez positiva: Zagallo, que o cortou da Copa da França, em 1998, e com quem tem uma briga na Justiça, aceitou dar seu depoimento ao ‘Ataque’.

O Velho Lobo disse que, depois de Pelé, “só existem o Maradona e o Romário”?
“Jura? O Zagallo disse isso?", perguntou Romário, boquiaberto.

Conheça o depoimento de 18 treinadores do Baixinho.

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“É incrível a noção de tempo e espaço que ele sempre teve. Na área, é o jogador mais completo que já vi. Supera o Pelé. É fantástico, diferenciado. Essa marca é uma homenagem ao futebol brasileiro. A área é, para o Romário, a sua cama, onde ele deita todos os dia. Tem total intimidade com ela.”
“O Romário é um fenômeno. As pessoas perdem tempo comparando Pelé e Garrincha, mas cada um tem seu estilo. Romário é o terceiro estilo. Dentro da área, não vi ninguém igual ao Romário. O que mais admiro nele é a frieza. Quando entra na área, sabe esperar numa fração de segundo o momento de pânico do defensor. Basta ver quantos gols já marcou com o goleiro caído. Ele tem precisão cirúrgica. Faz o gol com a facilidade das pessoas que são especiais. Acho graça quando dizem que, com o Romário, o Vasco vai jogar com 10. Vai, sim. E o adversário vai jogar com oito, pois terá de botar dois ou três em cima dele. É a inteligência que faz a diferença. Como pode, daquele tamanho, fazer gol de cabeça?”
“Não entendo por que aqui no Brasil gostam de contestar os ídolos. Na área, ninguém finaliza como Romário. Os gols que marcou são só dele. Quem foi o melhor companheiro do Pelé? Foi o Coutinho, e todo mundo sabe. Mas ninguém sabe quem foi o melhor parceiro do Romário. Os gols dele foram feitos por ele mesmo, sem dever nada a ninguém. Romário é um dos últimos românticos da área.”
“Romário é, disparado, um dos maiores artilheiros da história do futebol. Ninguém faz mil gols impunemente. Ele foi o Rei da Área e conhecia todos os caminhos que levam ao gol. Tem classe, estilo, boa colocação, arrancada, finalização e visão de jogo. Fora de campo, é um tipo especial. Espirituoso, mordaz e com muita personalidade. Só tenho ótimas lembranças de Romário e muito a agradecer pelo privilégio de tê-lo conosco na Copa de 94 na qual ele foi o nosso grande artilheiro, um dos responsáveis pela conquista e ainda o melhor da Copa. Quando parar, vai deixar saudades.”
“Não misturo a vida de jogador com o problema pessoal que aconteceu comigo. Esse assunto está com meu advogado. Torço pelo Romário. Ele já provou que foi um dos grandes dentro da área. É o cara que sabe fazer gols. Tanto que, com 41 anos, ainda faz muitos. O Pelé está fora de qualquer comparação. Mas, depois dele, falando de homem-gol, de artilheiro, só existem o Maradona e o Romário. Não falo do Romário de agora, ainda goleador,mas daquele que tinha o arranque e a técnica como suas características principais.”
“Fui adversário, companheiro na Seleção e técnico dele. Do início ao fim, foi o melhor. Sempre foi genial. Jogando contra ele, fui ajudado pela sorte, pois vi algumas bolas baterem no travessão. Eu não dava muito espaço, mas, quando me descuidava, o chute dele ia na trave. A gente se enfrentou por cinco anos e ele passou zerado. Como companheiro de Seleção, testemunhei coisas inexplicáveis. Nunca vi ninguém com tanta rapidez de raciocínio e capacidade de execução".
“Romário e Roberto foram os maiores atacantes que passaram pelas minhas mãos. Romário é muito mais jogador que o Ronaldo Fenômeno. Foi sob meu comando que fez seu primeiro gol como profissional, e posso dizer que é muito mais artilheiro. É mais conhecedor da área. Falo isso porque trabalhei também com o Ronaldo, na Seleção. Romário perdeu um pouquinho da velocidade, mas compensa tudo com a experiência que tem.”
“Um jogador extraordinário. Comigo, jogou dois anos seguidos na Seleção e nunca me deu trabalho. Nunca tivemos um desentendimento sequer. Cada um seguiu para seu lado, mas tenho boas lembranças dele. Romário tem um fantástico espírito de busca. Não merecia fazer 1.000 gols, não. Merecia fazer 2.000, por tudo o que representa para o futebol. Como jogador em espaço curto, ele foi o melhor do mundo.”
“Ele merece chegar a essa marca. Desde muito jovem, sempre foi petulante, atrevido em busca do gol. Com o tempo, adquiriu frieza e precisão, e acabou sendo considerado um dos reis da área.”
“Poucos conseguem a exuberância do Romário, não somente em gols como em desafios. Ele fala e faz. É um cara que merece minha consideração. Merece a consideração de todo o Brasil, pois não é fácil fazer o que ele fez. Ainda mais sendo irreverente como é. Suas principais características são a capacidade e a percepção em movimento.”
“Trabalhamos juntos no ano 2000, quando o Vasco conquistou a Copa Mercosul e a Copa João Havelange. Para mim, aquela foi talvez a melhor fase dele nos últimos anos. Ele estava jogando muito bem e marcando gols importantes. Tenho uma lembrança especial por um gol feito por ele, se não me engano, contra o Peñarol, em São Januário. Esse gol resume bem quem é o Romário. O jogo estava muito complicado, estávamos perdendo por 1 a 0. Houve um escanteio a nosso favor e ele pediu a cobrança curta. Dominou a bola, entrou na área driblando e sofreu um pênalti, que converteu logo em seguida. Quando as coisas não estão saindo bem, ele chama a responsabilidade para ele, e resolve tudo. Espero que comemore bem a marca dos mil gols, que será muito especial para ele, sem dúvida. É uma marca que deve ser exaltada.”
“Fazer mil gols não é para qualquer um, né? Discutem suas contas, mas o que vale é que o Romário levou uma Copa nas costas. Contribuiu muito para o Brasil ser campeão, em 94. É um jogador diferenciado, e por isso fez história.”
“Não há nada que pague a oportunidade de ser seu treinador, agora que Romário chega ao milésimo gol. Ninguém vai apagar isso da história. Romário está entre os três melhores do mundo. Pelé está acima de tudo. Depois, falando de atacante de área, só comparo o Romário ao Careca e ao Van Basten.”
“Fico feliz por essa marca dos mil gols que ele perseguiu como objetivo na sua vida profissional, mas gostaria de ressaltar o que Romário é como pessoa. As minhas recordações são as melhores possíveis e quem conviveu com o Baixinho sabe quem ele é. É uma pessoa que ajuda os outros e é sincero, bem claro e direto ao falar sobre o que pensa e o que sente. Tem liderança e talento. Costumo dizer que a diferença entre persistência e teimosia é uma linha muito tênue, que quase não se vê. Em relação a Romário, alguns críticos dizem que ele é teimoso em continuar jogando. Mas são momentos como esse que ele está vivendo que mostram que Romário é persistente”
“Não conheci ninguém igual a ele. Tem percepção e inteligência e sabe se colocar naquele pedaço ali de área. Esses mil gols valem mais do que um título, do que uma Copa do Mundo. Tivemos alguns problemas. São coisas que acontecem e que fazem parte do futebol. Mas isso é muito pequeno diante dos gols dele. Tenho que reverenciá-lo sempre. E me sinto orgulhoso por ser brasileiro, ele valoriza nosso futebol.”
“Romário foi campeão carioca, brasileiro, do mundo, artilheiro aqui e na Espanha... Sem mais nenhum desafio pela frente, decidiu desafiar o tempo. E está vencendo. Antes, Romário tinha uma arrancada extraordinária. Hoje, tem o conhecimento da área como ninguém.”
“O que aconteceu foi uma situação que eu gostaria muito que fosse esquecida e que o Romário pudesse estar em paz comigo. Continuo um grande admirador dele. É um fora-de-série. O melhor da posição que já vi. E, como brasileiro, torci pelo milésimo gol. Espero que a gente possa um dia se encontrar para eu poder abraçá-lo e parabenizá-lo pela marca histórica.”
“O que ocorreu no passado foi no sentido de ajudá-lo. O coração ficou apertado, mas tivemos que cortá-lo. Já reconhecíamos nele o talento e a capacidade de ser um grande jogador, mas a indisciplina foi mais forte. Não tomei a atitude sozinho. Reuni a comissão técnica e houve unanimidade. Mas sempre torci por ele e quero que seja feliz. Deixou sua marca no futebol mundial com sua irreverência e capacidade técnica. Tem frieza e indiscutível capacidade de concluir com confiança.”
 
Romário por ele mesmo
 
Especial publicado
em 07/08/2005
(Baixe o PDF)
 

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