As amargas não
Praticamente todos os dias leio trechos de um mesmo livro ‘As Amargas Não’, de Álvaro Moreyra. Escrito em fins dos
anos 40 por um grande homem de letras, teatrólogo, poeta, e, acima de tudo, um cronista excepcional, ‘As Amargas
Não’ são — como chamá-las? — reflexões?, diário?, memórias?, não sei. Prefiro chamar de crônica. Afinal, a crônica é
tudo isso. Em ‘As Amargas Não’, Álvaro Moreyra eliminou dos seus escritos todas as reflexões amargas, restando um
texto de pureza idiomática e de intenções elevadas, além do alto talento literário. E singeleza, virtude maior.
Ali está um gênero que cultivo até hoje. Pode ser gênero menor, como dizem, não importa, mas a crônica é grande
companhia para o leitor: falar de algum flagrante da vida, de alguma experiência amorosa, ou um livro lido, um
pedaço de poesia, uma recordação da juventude, enfim falar de tudo o que faz a vida é, com certeza, uma forma de
compartilhamento.
É que nesse gênero lateja algo que desaparece nos dias de hoje, principalmente na imprensa. Trata-se do que os
franceses chamavam de ‘esprit’, que é o espírito não no sentido de alma, mas de instância interior que traz o que há
ao mesmo tempo de frágil e forte no ser humano. Prefiro chamar de ‘vida interior’.
E esta vida interior, justamente, está a desaparecer dos nossos dias na sociedade extrovertida na qual tudo o que é
de fora, tudo o que é consumo, tudo o que é escancarado, tudo o que é aparente sepulta essa deliciosa vivência do
ser consigo mesmo — os espaços de silêncio, recordação, fantasia, devaneio, pranto, observação aguda e arguta do
mundo, prazer da leitura, da meditação, do ócio criativo.
Deu-me, então, grande vontade de ainda ler uma coluna como havia antigamente, tratando só de vida literária.
Pequenina, em canto de jornal, mas diariamente repleta de algo que também desapareceu da imprensa como da nossa
vida: amor e compreensão por quem escreve. Prazer de contemplar obras de outros.
Na voracidade de nossos dias, também a imprensa se dedica mais a falar mal e a dizer do que não gosta, do que, como
fazia Álvaro Moreyra, proclamar o lado bom e ameno da vida, encontrar almas-irmãs, fecundar interesses literários e
usar de modo simples a palavra como traço de união entre os povos.
Que tempos, meu Deus! Que tempos!
Publicada em 15 de março de 2008 |