Sobre a alegria e amor

Assim como é preciso alguma crueldade para viver, assim como há sempre alguma agressão embrulhada em qualquer
vitória, assim, também, a alegria precisa de alguma inconseqüência. De outro modo, restará apenas a lucidez, que é sempre repleta de ‘trágicos deveres’. Libertando-nos da plena consciência, a inconseqüência nos permite alguma
alegria possível.

Por isso, o amor não está ligado à alegria. É que o amor não busca a alegria. Busca a felicidade. Os que buscam a
alegria devem desistir do amor. O amor é um sentimento ligado à lucidez, aos trágicos deveres, à renúncia, à
compreensão das contradições.

Amor é empreendimento da mais difícil das escaladas, a que tem como meta não chegar a parte alguma, talvez. É, sim,
capaz de suscitar aquele sentimento que se mistura absolutamente à vida, tornando-se corriqueiro, natural, mal
percebido, cotidiano, sem grandezas, feitos extraordinários, emoções particulares ou excitantes. Mas permanente. E
feliz. O amor, só ele, mantém juntas as pessoas que já não dependem das hipnoses do próprio sentimento para senti-lo.No dia em que elas descobrirem o amor que estala dentro da relação aparentemente pacificada, talvez comecem a descobrir a beleza, a grandeza e a profundidade do que têm em comum. Só aí sentirão as emoções verdadeiras do mais profundo, difícil e complexo dos sentimentos.

Aqui reside, pois, a complicação do amor. Ele só é descoberto quando ultrapassa o amar. Só aparece quando a perda ameaça se instalar. Só se torna visível quando ameaça desaparecer. Está onde menos se espera. E é profundo, vital,
doador, salvador. Independe de exaltações. Como fonte, flui sem parar. Sereno.

É preciso muito viver, muito desilusionar-se, muito gostar, muito sentir, muito experimentar, muito perder, muito
entediar, muito renunciar, para encontrar o próprio amor.
Falo do amor guardado não se sabe em que dobra da gente.

Publicada em 29 de março de 2008