A mulher apaixonada
É um ser em estado de torcida do Flamengo. Torce mais por ele (o amado) que pela Seleção. Entra no campo, agride o
juiz, salta o alambrado, topa qualquer desafio. Só vê a vitória.
Vai pro exílio, larga carreira, profissão, conveniência, partido político. Só tem um caminho e uma verdade: o amor.
O resto virá depois. Sem ele, o tudo é nada.
É o mais paciente dos seres impacientes. Sempre em estado de “estou pronta”, leva anos esperando, com uma
insuportável e maravilhosa impaciência, exigência, dedicação, entrega, cegueira, vontade de quintais, praias e
amarrações, que supõe perfeitas e definitivas. Ninguém vive a provisoriedade com tanto sentido de permanência.
Ninguém assina em branco e antecipa tantos avais de afeto. Ninguém erra com tanta convicção e decência.
É fera e santa, guerreira e gato, desastrada e genial, capaz de usar fitas; meias coloridas; de enfrentar solidões,
distâncias, presenças e furacões pelo ser amado.
É o mais regular dos seres irregulares, porque não julga, não pensa, não avalia: sente. E que se danem o mundo, as
regras, as regulações, disposições, legislações e tudo aquilo que a mãe ensinou! Que o mundo exploda em flores!
Ser de grandezas, só vive de migalhas.
Entende de lençóis iluminados pela luz do corredor nas noites sem sono, conhece ruídos diferentes de tique-taques e
entende de cantores e poetas (escolhidos secretamente).
Interpreta as mensagens mais sutis do amado: tom de voz, espaço entre uma e outra frase, fomes dominicais,
impressões vagas de cansaço, tédio, alegria ou saudade expressas por fungados, suspiros, desabafos, interjeições,
gestos, sons, olhares.
Publicada em 27 de outubro de 2007 |