As expressões do beijo
O verbo beijar antigamente era ativo: Fulano beijou Beltrana. Ou, docemente passivo: Fulana deixou-se beijar por
Fulano. Hoje, com as coisas mais soltas e iguais (ainda bem), tudo mudou: é o beijo entre Fulano e Fulana. Realmente
os beijos contemporâneos se dão entre. Eles passam a ser um encontro de vontades em vez de ser algo roubado, tirado,
ou subtraído da mulher. Esta abandona, também, o deixar-se beijar (tão passivo e sonso) e manda brasa, que ninguém é
de ferro.
Fico a imaginar os tempos do deixar-se beijar: a boca só receptiva e meio mole, sentindo difusas e vagas formas de
prazer, é certo, mas bloqueada na ação beijante pelo medo de uma entrega que pareceria pecaminosa ou pouco
conveniente a mulheres de família.
Quantos impulsos da mais completa generosidade e ternura rolaram no esquecimento e no vazio pela atitude
forçadamente passiva da mulher, reação esta tão poderosa, que ainda gera, mesmo entre pessoas, digamos, liberadas,
certa tensão ou rigidez muscular defensiva no momento do ato sexual, ou, até mesmo, de um simples beijo! Sim, é de
tal força essa repressão arcaica e cultural (mas presente ainda hoje), que, mesmo liberados na cuca e na teoria,
muitas mulheres e muitos homens se trancam na rigidez muscular, amando retesados como o animal que se enrijece para
se proteger do ataque.
Para pessoas formadas na tradição de que o beijo, sendo um ato íntimo, não deve ser exibido, vê-lo, por certo, será
chocante. Mas se essas mesmas pessoas (caso não temam a realidade) saírem às ruas, verão a naturalidade com que a
juventude faz do beijo uma forma de comunicação e de encontro.
Nunca se beijou tanto como hoje em dia! O beijo coloca as pessoas num contato mais verdadeiro com a paixão, com a
atração sexual, com o instinto natural, com a procura, com o encontro também possível através da pele e dos
sentidos. É como se a alma que sai pela boca pudesse encontrar a gêmea. Tais encontros não eliminam nem removem a
dimensão mais importante e global: a espiritual. Porém dão a ela um fundamento físico fora do qual ela jamais poderá
se exercer plenamente.
Publicada em 12 de janeiro de 2008
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