Um caminhão para cada um

Como pregar a liberdade do homem, se a minha está escravizada às crenças que me dominam? Como defender a libertação dos oprimidos na condição de oprimido pela própria convicção? O impasse dos políticos e pensadores ocidentais reside nisso: eles não se fazem senhores das próprias idéias e pensamentos: escravizam-se, transformam-se em seus servidores; perdem a dimensão reflexiva, a única capaz de transcender o próprio pensamento; a única capaz de pensar-se em pensando e capaz de surpreender as próprias servidões.

Mas o que é ser senhor das próprias idéias? Parece-me que consiste na capacidade de considerar tudo que se pensa e
todos os nossos juizos de valor (julgamentos) dentro de uma ótica relativa, dentro de uma forma de pensar que é
própria, inelutavelmente peculiar a cada pessoa em particular. Assim, em vez de se impor aos demais, a nossa forma de pensar, de ver e sentir o mundo deve ser oferecida à reflexão alheia, não como absoluta ou a única, a correta, e
sim como contribuição para a interpretação do real.

Ser senhor das próprias idéias, pensamentos e convicções é aceitar a dimensão poli-ótica no lugar da dimensão
mono-ótica, a que explica o mundo através de uma só visão, negando as demais. Ora, a realidade é múltipla, complexa,
plural, sempre maior do que a nossa capacidade de compreendê-la.

Ser senhor do próprio pensamento é ser capaz de vincular as convicções não apenas a idéias puras, mas ao ser real de
cada pessoa. É ser capaz de ajustar o que se pensa ao que se é, em vez do tão freqüente e doentio processo de
procurar ser apenas aquilo que se pensa, aquilo que é considerado o certo, aquilo que os outros, e não a própria
pessoa, disseram ser o caminho. E não é. Há um caminho para cada um. Feliz 2008!

Publicada em 1º de janeiro de 2008