Uma cena banal no Rio de hoje
Quem viveu na Rocinha, na década de 70, talvez se lembre: dona Cacilda tinha um juramento: fazer o seu moleque
doutor. Lutou, brigou, pediu, bateu, fez biscate. Mãe solteira decente, mas decidida, chegou a vender o corpo quando
mais moça, chorou, gemeu, economizou, apanhou, de gigolô, costurou, mas o menino fez o primário, uniforme pobre.
Porém limpo.
Trabalhou em casa de família, costurou, lavou extra, fez doce, invadiu o terreno baldio e tirou o moleque de lá aos
tapas para estudar, pediu ao patrão, cavou a bolsa, falou com o deputado, com o pastor da igreja, o padre, fez bolo
pra batizado, passou roupa nas folgas, dormiu sentada vigiando-lhe o estudo, levou vaia da rapaziada, enfrentou duas
namoradinhas, mas ele tirou o ginásio. Perto dos 40 anos, ela encontrou um companheiro pedreiro, decente, crente de
igreja. Não saiu da Rocinha.
Ele foi pra lá. Participava da igreja, ajudou na economia, botou dim dim na caderneta, costurou pra fora, fez doce,
inventou comidinha e vendia pra birosca. Deu plantão na porta de festa pro filho não vir dormir tarde.
Deixou que rissem dela, que gozassem o rapaz, filhinho da mamãe. Rejeitou sair da Rocinha, o pedreiro tivera a
chance de morar em Queimados numa casa boa, mas era longe e tinha o custo da passagem. Não dormia se o moleque não
chegasse, deu-lhe tabefe já rapaz quando malandreava, mas ele fez o segundo grau completo.
Não passou no vestibular. Ela compreendeu e de novo não dormiu. Arranjou professor particular, costurou e cozinhou
mais, roupa para si já não comprava, só consertava as velhas, ficou avarenta, zura, pão-duro, sovina, mas ele teve o
professor e no outro ano passou no vestibular. Ficou seca, envelheceu rápido. Magrinha, agitada. Sua vida era
trabalhar e esperar pelo filho, lutar e brigar por ele e com ele. Ao marido nem ligava, sexo, Ihh! Já tinha um
tempão! Isso era bobagem de gente moça. As roupas sobravam, mais economia, pouca conversa raro riso muito siso,
alguns pesadelos estranhos. Os dentes caindo. Cada vez menos dormia. Falta de apetite, casca de pão dormido com café
amargo. A poupança para o anel de doutor, a roupa da formatura, o dia da formatura.
Num tiroteio entre quadrilha do Borel, onde o filho fora levar a noiva, a bala perdida matou um inocente: ele.
Estraçalhou-lhe o cérebro. Era noite de luar. Justamente a noite escolhida pela mãe para lhe entregar o anel de
doutor, quando ele chegasse em casa.
Publicada em 28 de julho de 2007 |