Colégio é beleza e dor

Os dois. Da educação falem os doutos, deixem o cronista falar de emoção. Um colégio é o seu álbum, as fotos e
coração batendo mais forte. Colégio é estalar de paixões, atrações sensuais, mútuas fantasias desordenadas de peles
e olhos se descobrindo. É tentativa e descoberta. Colégio é senha, senha e sonho.

Vejo os colégios não só como lugar do saber, mas do treinar. Treinar para ser gente; falar em público; sofrer;
frustrar-se; descobrir incompreensão, simpatia, boas e doídas competições.

Sinto o susto do menino tímido no primeiro dia de aula, a dor de barriga, o medo dos grandes. Revejo os machinhos, o
garanhão, os piadistas, os chatos, o chulé, o puxa-saco, o filhinho da mamãe, o c.d.f., o craninho, o não-quer-nada,
o cheio de espinhas, o parrudo, o topeira, o lesma, o tapado, o medroso, o suave, a bicha, o artista, o turista, o
gênio maluco, o bagunceiro, o Juquinha, o complicado, o fazedor de quadras, o enrolão, e o menino poeta a olhar a
alma das coisas, um ar doce, eterno desligado.
Lembro os colégios do velho Ipanema da infância na década de 40. O Fontainha, onde estudei; o Mello e Souza
feminino, em cuja porta "paqueramávamos"; o Silva Mendes, que tinha o melhor campinho de futebol da minha infância —
depois fechou, meses trancado, fomos lá, Armando Barroso e eu, e roubamos bichos empalhados, corujas. E havia o
Guanabara, na Praça General Osório, quem se lembra? Na Visconde de Pirajá, entre Teixeira de Melo e Farme de Amoedo, havia um colégio cheio de caramboleiras. Foram as melhores carambolas da infância e da vida. Havia o Colégio São Paulo e ainda havia o Colégio Brasileiro de Almeida, da mãe e do padrasto do Tom Jobim, ótima instituição. Sem
contar o Notre Dame, com meninas virgens de bela saia azul claro, joelhos redondos e boina. E a lembrar, também, o
Colégio Rio de Janeiro, que lá estava, na Rua Nascimento Silva.

Colégios do mundo, comemorai vossos aniversários. Buscai velhos alunos, turma a turma, ano a ano. Reuni vossos
sonhos. Onde andará o primeiro daquela turma? E a menina mais bonita da escola? Que é feito daquela virgindade
estonteante? E a moça que morreu? Para onde foi o cleptomaníaco? E os tristes? Ei, o que fizeste de tua vida? Onde foi parar o idealismo? Beleza, onde estás? E a ilusão? Lembras aquele gol, o beijo, a primeira relação sexual? Que
males te fez a vida? Que bem passaste?

Publicada em 16 de outubro de 2007