E você, ouviu o seu estalo?

Estou em falta com as amendoeiras do Rio. Suas folhas douraram-se, lindas, e fui deixando. Agora são os brotos da
primavera na árvore mais popular da cidade.

Pare e pense: você já descobriu o exato momento em que a flor estala, plena de pólen? Quem sabe viveu até agora e
nunca se doou tal privilégio?

Recorda-se do primeiro estalo de seu amor? Daquela emoção difusa, desarrumadora, estatelante, rica, pileque da alma por excesso de oxigênio? Quando foi? Para muitos é na infância, até! Outros estalam mais tarde! Quantos (perdão)
nunca estalaram, embora tenham cumprido todos os rituais do que se chama amor?

Ou será que se assustou, mediu conseqüências, porque, fora de você, mil olhos fiscalizadores lhe ensinaram a
desconfiança, o medo antecipado do sofrimento? Ou, o que é pior: as regras e etiquetas do que é amor?

Pode ser que o estalo tenha sido sem som. Muito fundo, ou insinuante demais para ser óbvio, sempre sepultado por sua
maneira de ser, surda a si própria, mas nem por isso menos intensa, toda vivida ao nível do submerso pela razão,
implacável.

Sempre que se aproxima a primavera fico pensando que nós apenas a esperamos e só a sentimos quando o broto estala naárvore, e androceus e gineceus se agitam na intimidade da flor. Apenas constatamos a primavera, sempre depois que
ela chega e, pretensiosos, supomos ter sido feita somente para a nossa fruição. E ninguém, dias antes, meses antes,
sei lá, encosta o ouvido na árvore, no caule ou na planta, para escutar a melodia da fauna criadora que lhes vai por
dentro, o ruído dos ritos da preparação. Ninguém nunca saberá o esforço, o trabalho, o sofrimento e a conseqüente
alegria vegetal, operados secretamente na intimidade imóvel de cada caule, tronco ou galho. Sempre estou a imaginar
a agitação da seiva, a mobilização das energias renascidas naquela intimidade (re) inaugural.

Se você se recorda do estalo de amor, dele se lembrou talvez com amargura posterior, mas com a certeza de que ele
foi a grande significação de que você estava vivo, existia, e o mundo, a humanidade e a espécie estavam salvos
porque você amava. A chegada do amor é o começo de uma nova etapa: a lenta e penosa faina do amadurecimento, a da
preparação das sementes. Assim é a primavera. Assim acontece também com as amendoeiras. E conosco.

Publicada em 29 de setembro de 2007