Um filho rapagão a dormir

Lembro-me de repente de um instante no passado: um de meus filhos, então rapaz, a dormir no sofá da sala, o livro
caído a seu lado. Em um filho jovem, mesmo um latagão, a dormir, aflora a criança desvalida e fraca. Some a
expressão dos olhos, os significados da voz de machinho, descansam os músculos faciais que definem os traços
representativos dos disfarces e defesas que inventamos para sobreviver.

Um rosto de jovem, deitado e de olhos fechados, faz cessar por instantes as intensidades e discordâncias daquele
novo ser pulsátil, cheio de idéias, atitudes, pontos de vista, competições, raiva até da dependência de tantos anos
aos pais. Há um breve retorno à desproteção da infância, que renova no pai uma forma poética e emocionada de apego
aos filhos.

Raras vezes nos é permitido reter a infância dos filhos, esvaída na ânsia de descobertas e justas independências,
quando eles ‘ajovecem’. Ao contemplá-los assim, fortes mas vulneráveis, dentro de nós latejam misteriosas
intensidades. Somos pedaços de complexidade ganindo ânsias de harmonia e integração. Dentro de nós lavra um afã
constante, preparação do vir-a-ser. É a evolução, inevitável. Somos um esforço sem trégua para alcançar um ‘adiante’
que engendrará novas disposições de avanço na direção do não se sabe. Somos pedaços de cansaço feliz por buscar o
que, alcançado, transforma-se em plataforma de novos embarques. Somos um lindo e conturbado espetáculo de luta e jardim. Somos a natureza no esforço de existir e propagar a espécie. Somos a expressão dolorosa da ânsia de existir.
Assim somos. A/penas. E vemo-nos como tal no filho rapagão a dormir.

Por isso, quando de olhos abertos, falando, pregando, querendo, clamando, postulando ou dizendo, somos um cansaço em andamento; somos o nosso doloroso miolo, busca constante de transcendência, transparência e harmonia, ideais da divindade que mora em nós, incompleta, sempre em andamento, em busca da transformação, como o universo.

Mas ver o filho a dormir ali, jovem, descuidado, grandalhão, é encontrar a criança que nele mora. E é ser pai de
novo. Por certo quem me lê já viveu essa emocionada alegria antecipatória de saudades que se aproximam.

Publicada em 31 de janeiro de 2008