O homem de São Bernardo
O ser humano, tanto quanto algoz, é vítima de sua própria capacidade de vitimar, eis uma trágica condição das
pessoas cujo comportamento é comandado somente pelas circunstâncias externas.
Esse é um determinismo do bicho-homem: o de ter o comportamento modelado por interesses materiais e reações
decorrentes não da liberdade, compreensão do outro ou acuidade psicológica, mas de impulsos despercebidos,
irruptores, comandantes. Sua regra: ter poder ou prestígio.
É trágico esse determinismo. Ser servo das regras de comportamento de seu tempo. Ajustar o viver aos interesses.
Tentar subordinar o mundo e os que o cercam a desígnios que nem seus são por opção, mas por adoção cega dos valores
vigentes na sociedade. São comportamentos apenas objetivos, carentes de afetividade, de intuição, de criatividade:
são reações que a vida impõe, jamais ações livres, peculiares, criativas. Por isso, muitos tentam esmagar as
mulheres: porque elas detêm a força do sentimento que domina secretamente o opressor. Ela é forte para dominá-lo,
submissa embora, na aparência.
Há outra terrível verdade: a dificuldade que tem o ser humano necessitado de poder (e de sentir-se seguro) de
admitir o amor como sentimento redentor e bom, embora gerador de muito medo de perda. Há riscos no amor. Por isso
não é matéria para covardias e para covardes existenciais.
Esta é, pois, uma realidade psicológica perfeitamente adaptável ao homem da época atual: não saber ou não conseguir
entrar em relação com o sentimento e com os próprios fantasmas. Estes, reprimidos, fermentam por dentro e promovem a
irrupção da violência e da doença.
Dou uma dica a quem se interessar pelo tema. Leia São Bernardo, de Graciliano Ramos, e preste atenção no personagem
Paulo Honório. Ele simboliza exatamente o que ora tento retratar. Mas, se não quiser ler, olhe em volta. Está cheio
de gente assim, que vive de bloquear e de desconhecer o seu próprio lado livre e bom.
Publicada em 18 de dezembro de 2007
|