Coração de rapaz

Hoje acordei com coração de rapaz. Dei cor, a cor dei, de jovialidade e luz a este velho coração. O sono visita
reinos. Reina-se dentro do inverbalizável mistério de regiões ignotas provindas do próprio ser no contato com o
cosmos. Ora nos conduzem a céus, à vida, a símbolos inverbalizáveis, ora remetem a turvos rincões de lajes frias,
tumbas dolorosas.

O rapaz hoje voltou no coração. Há que reter este gosto de sorvete de magnólia e calda de orquídeas sensuais. A alma
passa a ser tecida com gravetos de ninho para de amor tecer a efusão da leve embriaguez, esta de acordar redimido de
cansaços e misteriosamente recompensado por tudo o que na vida eu soube amar em silêncio e obter do melhor de mim
para um ser e um fazer abençoados.

Hoje acordei com coração de rapaz. Capaz. A reviver emoções juvenis e sentir o vento como bênção das tardes repletas das promessas de amor. Sou bom, sou inteiro, atleta, poeta, trabalhador, só ideais. Sou riso, sou siso, narciso, como não ser eu rapaz?

Acordei certo de merecer amor brotado sincero como fonte a fluir sem esforço na direção da vida. É pura a minha água
e nenhuma a minha mágoa. Amor de amor, amor de filha, namorada ou mulher.

Hoje acordei com coração de rapaz, espadachim, campeão, idealista, ingênuo, integral, protéico, abençoado, pão de
glúten, dançarino de bolero, filho estimado, a caminhar resoluto com camiseta na alma e tamanco no coração.
Quem saberá da emoção velejante de um conspícuo senhor de tantos anos, com indevida, mas, felizmente, hoje alguma
expansão abdominal, de cabelos brancos a ladear-lhe a calva, ao acordar assim num dia perdido no tempo? Quem saberá da alegria jovem de despertar nesta idade após uma noite de sono fundo e sem interrupção, com um coração de rapaz, vivência há tantos anos tecida com o amor generoso e verdadeiro pela vida, o milagre da vida, o augusto milagre de
ser e viver liberto das angústias que colocam teias de aranha no melhor de suas esperanças encanecidas.

Hoje acordei com coração de rapaz e disposição de tudo começar de novo, corado de idealismo na face jovem, repleto
dos mesmos ideais de sempre, só que, agora, sem as ilusões de antes. É bom, nem que por um dia, estar com coração de rapaz em pleno esplendor da serena idade, às vésperas de um novo ano.

Publicada em 29 de dezembro de 2007