Aconteceu antes do teipe

Já pensou em televisão nos tempos em que os programas eram todos ao vivo? Errar não tinha remédio. Tudo se
concentrava no momento de ir ao ar, quando os detalhes deveriam estar bem estudados. Aqueles tempos eram, também, de grande improvisação, típica, aliás, das fases de implantação de um meio tão complexo como a televisão. O resultado?

Volta e meia acontecia um daqueles acidentes sem remédio. Cito dois: 1. São Paulo. Anos 50. O ator Milton Ribeiro, famoso por seu desempenho em ‘O Cangaceiro’, fazia na TV um programa da série ‘TV Mistério’, na Tupi. Contracenava com Lima Duarte no final da obra, quando este lhe dava um ‘tiro’ mortal. Deu, e ele ‘morreu’. Câmeras avançam e big close up do rosto do morto para a entrada da música final.

De olhos fechados, ‘o morto’ nada podia ver. Nem se a cena já acabara. Pensa que sim, e abre primeiro um olhão, depois
outro. Mas continuava em cena, o que não podia saber, pois a luzinha da câmara estava enguiçada. O diretor berrava:
“Morre, desgraçado, morre!” O som da sua voz saía pelo fone do cameraman, chegando ao ouvido do ator que,
subitamente, voltou a ‘morrer’, agora para divertimento dos que estavam em casa e desespero do diretor. Afinal ele
preparara o maior suspense para aquela cena final, uma cena final "bem realista", como havia recomendado.
2. Sexta-feira da Paixão, ‘A Vida de Cristo’. Anos 60, TV Tupi. Em plena crucificação, música forte, cortes nos
rostos dos atônitos assistentes da cerimônia no Calvário, cortes para o rosto suado e sofrido do ator. Câmeras ao
rés do chão tomavam-no de baixo para cima em ângulo de exaltação. Por impossibilidade técnica de simular as mãos
pregadas à cruz, o ator segurava na madeira por trás, quando, no exato momento do close de seu rosto para o ‘gran finale’, a mosca lhe pousa no nariz. Tenta espantá-la fungando. Nada. Move o rosto. Nada. Cócegas aumentando. Nada.

Ela inicia o passeio por seu nariz. Desesperado, o diretor de TV saiu do close-up temendo um espirro, e deu um plano
geral para não se verem as caretas. Pois, nesse exato momento, o ator, vencido pelas cócegas, larga a cruz e espanta
a mosca com um safanão liberador...

Publicada em 29 de abril de 2008