Todo compreender é afetivo

O afeto permite estender a compreensão a níveis extensos, intensos e profundos, em latitude e longitude. Só o afeto
prévio permite — a posteriori — a crítica verdadeira, a análise adequada. A falta de afeto bloqueia qualquer forma
de compreensão, porque impede a possibilidade de estender uma ponte ou de acender a luz de uma oportunidade de encontro, sintonia, empatia, aceitação, etc, entre dois seres.

Há um conhecimento que só é possível através da compreensão. Não é o único conhecimento possível. Mas é o que permite ir mais longe e mais fundo na pessoa ou coisa conhecida. Compreender é, portanto, aceitar o próximo,
traduzir, interpretar, é ser capaz de entendê-lo imediatamente com a luz do afeto, para só depois o definir com a
luz da razão. Para a plena compreensão do outro é fundamental abrir mão, por momentos, do próprio ego.

‘Com-preender’ significa ‘com + prender’, isto é, estar com o outro incorporado dentro. E prender, tem, também, o
sentido de ligar, atar, acender, trazer consigo, guardar. Para tal, só a cabeça e a razão pouco podem. Embora
ajudem. É preciso umedecê-las com o afeto, base de qualquer impulso capaz da compreensão verdadeira. É preciso não julgar. Ou só julgar depois de aceitar o próximo. Este é um velho princípio que faz parte da revolução cristã, até
hoje pouco ou nada praticada mesmo por religiosos de todos os matizes. Aceitar o próximo é a capacidade de amá-lo
antes de julgá-lo. Como é difícil!

Num sorriso, no doce olhar e na recusa de emitir qualquer julgamento, está a atitude de vida positiva. Está o
impulso de compreensão nascido da capacidade de aceitar. E ser aceito representa felicidade para qualquer pessoa.

Publicada em 30 de junho de 2007