Visão de mundo

Cada opção humana está baseada em sentimentos fundos, alguns dos quais insondáveis. Há causas externas, ideológicas e há causas internas, psicológicas. As duas se cruzam e confundem. Ambas valem.

Minha geração atravessou várias influências decisivas. Em 30 anos, passou por dentro do marxismo; das mudanças no
cristianismo; da entrada do pensamento oriental no ocidente; da psicanálise e da revolução tecnológico-científica.
Varejada por essa concomitância de revoluções (exteriores e interiores), minha geração teve que digerir uma evolução
e uma transformação maiores que as vividas pela humanidade nos dois mil anos anteriores.

Ao longo dessa invasão de transformações concomitantes, alguns foram cansando, desistindo, ou escolhendo uma só via como preferida. Outros, como eu, preferiram procurar compreender (e incorporar) os aspectos complementares e os contraditórios de cada uma dessas revoluções.

Não é fácil questionar as (próprias) convicções que se vão formando ao longo da vida e tendem a se cristalizar. Ser
só cristão, ou só adepto do pensamento oriental, ou só agente do progresso tecnológico, ou só ver o ângulo
psicológico das questões, ou tanto e tanto mais, é mais cômodo e fácil que compreender em extensão e profundidade todas essas revoluções, incorporando o resultado delas à própria vida, processo doloroso e difícil, mas fundamento do homem integral.

Daí decorre a importância do neo-humanismo que brota de todas essas experiências. O humanismo é o grande fator
integrador, porque dimensiona a medida humana de todas essas revoluções. Ele une e fecunda partes aparentemente
contraditórias. Condiciona os desenvolvimentos materiais e os espirituais ou subjetivos de nosso tempo, realizando,
em suma, o metabolismo da incorporação do que serve à vida individual ou coletiva.

Hoje tombam as utopias do desenvolvimento material que encantaram o século vinte, porém não cai o sentido de
progresso inerente a ele. Em vez de progredir apenas, o desafio é compatibilizar progresso com a felicidade,
liberdade e justiça social. Trata-se de conciliação dolorosa entre atitudes que já pareceram díspares. Um vetor
espiritual ladeia o vetor material nos tempos atuais. Falo de uma nova espiritualidade.

Publicada em 28 de fevereiro de 2008