A arte de viver
Nem sempre o progresso interior do ser humano (quando existe) é acompanhado por atitudes compatíveis com ele
(progresso).
Quando alguém evolui espiritual, intelectual ou psicologicamente, nem sempre consegue ajustar a evolução à sua
vida.
É que já está de tal forma preso a formatos anteriores de personalidade, com os quais aprendeu a ajustar-se e a
defender-se na vida, que dificilmente abre mão de seus paradigmas.
A vida de cada um de nós, na medida em que a consciência se amplia, estabelece um conflito entre a evolução e o que
resiste a ela, por já ser molde de comportamento.
Em geral esse “molde” ganha a luta. Mesmo que o leve para a estagnação ou para o “brejo”. Somente um processo de
análise e de educação consegue ajustar a evolução à vida. Evoluir, crescer interiormente exige mudanças que a
existência pede mas a vida nem sempre autoriza. Briga feia, esta....
Há períodos, porém, em que a evolução pode se desencadear com rapidez. Algum fato doloroso, perda ou amadurecimento
consciente e inconsciente propiciam a revolução interna.
Alcançar tal ponto pela evolução gradual e a coragem de existir como um novo ser (ou recuperar o verdadeiro ser
antes guardado e escondido pelas defesas) é, mesmo, difícil. Porém muito mais complexo e doloroso é passar para a
vida a evolução obtida. E fazê-la permanente.
Há pessoas que procuram, a qualquer descoberta ou novidade exteriores, logo incorporá-las à evolução interior. Mas a
vida possui severas regras e leis.
Se a passagem for brusca ressentir-se-á. No tropel da renovação desejada (e necessária) será jogado fora o que não
era para tal. Adiante fará falta.
A sofreguidão de transportar a evolução interna para a vida vivida pode levar a erros e mudanças bruscas (e
radicais) demais para perdurarem. Acontece freqüentemente. O oposto também ocorre: evoluir, sem, contudo, transferir
para a vida atitudes e modos de ser compatíveis com o que mudou e amadureceu. Aqui, o sofrimento é ingente. A vida
impõe compromissos, alguns insuperáveis, injunções terríveis e graves. Como removê-las sem fortes danos? Ou sem
machucar terceiros, quartos, quintos etc?
Possível, sim. Fácil, jamais. Doloroso, sempre, pois acompanhadas de perdas inevitáveis, irreparáveis e inerentes.
É, portanto, difícil, profundo, doloroso, o processo de compatibilizar a vida vivida com os rumos do desenvolvimento
interior.
Raro é adequar-se a vida à evolução. Talvez, seja até mais difícil do que evoluir.
O trabalho interior para evoluir, crescer e amadurecer é sofrido e lento!
Ajustar, depois, a evolução à vida, poucos conseguem; só os fortes.
Ou os sábios. E mesmo a evolução está carregada de recuos, erros e dúvidas. Viver é uma arte.
Publicada em 25 de agosto de 2007 |