Arriscar é preciso

*Humberto dos Santos

e-mail: hsantos01@yahoo.com.br

Toda vez que se fala em investimento em ações, as pessoas dizem, ou pensam, que se trata de uma aplicação de risco. Esquecem de que toda aplicação tem risco, qualquer que seja ela.

Quando se investe em renda fixa há riscos envolvidos: o emitente do papel ou o gestor dos ativos pode quebrar, as condições de mercado podem se alterar, etc.

Quando o investimento é em imóveis, além do risco, temos a pequena liquidez da aplicação. Se começar uma obra grande na rua do imóvel, um viaduto, por exemplo, o preço dos imóveis na região tende a cair.

Investir em dólar nem se fala; é perda na certa.

O que o investidor precisa entender, é que tudo na vida tem um grau de risco; a própria vida é um risco. Podemos ser atropelados, ser alvo de bala perdida, ser assaltado, a chuva invadir e destruir nossa casa, etc. Por esse motivo Guimarães Rosa, famoso escritor e membro da Academia Brasileira de Letras, cunhou uma frase lapidar: “viver é muito perigoso”, quer dizer é arriscado.

A Associação Nacional dos Bancos de Investimento – ANBID (www.anbid.com.br) editou uma pequena cartilha com o título “Como investir? – Guia de Investidores”, onde além de dar diversas dicas sobre investimento traz definição de três tipos de risco, a saber:
- Risco de Mercado: é associado às oscilações dos preços dos ativos. Cada ativo tem um preço (ou cotação) que varia diariamente e reflete quanto os investidores estão dispostos a pagar (no caso de uma compra) ou a receber (no caso de uma venda) por ele.
- Risco de liquidez: é a possibilidade de que a procura por um ativo se reduza podendo mesmo acabar.
- Risco de crédito: em geral classifica-se como risco de credito a possibilidade de que o direito a um recebimento futuro por parte de um credor possa ser honrado pelo devedor.

A ANBID também criou um site muito interessante que vale a pena visitar:
www.comoinvestir.com.br.

Podemos ver que a coisa não é tão simples e segura com o parece.

Na realidade a aversão ao risco é inerente ao ser humano por medo de perder algo. Temos medo de perder o emprego, um bem querido, um casamento, a vida e por aí vai. Este medo de perda é,então, transferido inconscientemente para as aplicações financeiras. E então julgamos que certas aplicações são arriscadas e outras não.

Quando falamos em investir em ações elas logo pensam; “e se eu perder este dinheiro?”. Ora, é preciso a aprender a conviver com as perdas. Perder o medo de uma aplicação sobre a qual não temos muita informação sobre seu comportamento futuro. É preciso aprender a perder. Só se perde se arriscamos. E quanto maior o risco maior o retorno.

A pessoa que é muito conservadora vai ver a vida passar pela janela e não vai viver. Vai ser uma pessoa que estará sempre apegada ao medo, sem descobrir as cores da vida. Sua passagem pelo planeta será em preto e branco.

Este conservadorismo irá se refletir em suas aplicações. Perderá a oportunidade de alavancar seus ganhos, pois as aplicações em renda fixa lhe trarão um retorno futuro limitado. Irá sempre comer bife com fritas nos restaurantes (medo de pedir outra comida e não gostar), irá assistir sempre aos programas de auditório aos domingos, (ao invés de visitar museus – medo de ser assaltado), ir a cinema ou teatro, pegar um bronze na praia (medo de arrastão) e por aí vai.

É preciso sair do marasmo, viver a vida de maneira mais intensa, fazer aplicações financeiras mais arrojadas, sair do Nhenhenhém da reclamação. Se você fizer todos os dias o que está fazendo hoje, daqui a um ano estará no mesmo lugar. Lembram da música do Chico Buarque “Todo dia ela faz tudo sempre igual...”?

Por isso é que venho preconizando uma diversificação nos investimentos mesmo de pequenas poupanças. Sugiro para começar a perder o medo, ir ao seu banco no dia do vencimento de um título ou da poupança e resgatar 10% do aplicado e colocar em um Fundo de Ações. Se tiver mais dinheiro, chame alguns amigos e monte um Clube de Investimento; vocês irão aprender muito sobre o mercado de ações, pois poderão participar do gerenciamento do Clube. Se a Bolsa cair não se preocupe; afinal você será sócio, isto é, dono de uma parte de grandes empresas. Espere passar a baixa; dias bem melhores virão.

Saia da rotina molhe os pés na chuva, tome mais sorvete, ande de montanha russa. Isto lhe fará bem ao bolso e ao espírito.

Parodiando Fernando Pessoa: “arriscar é preciso, mas viver também é preciso".

*Economista e professor de Análise de Investimento
(www.mercadoseacao.blogspot.com)

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