|
Darci Dusilek, Diretor da Escola de Teologia
da Unigranrio
A conduta de João Paulo II em 26 anos de pontificado
foi marcante. Não apenas no nível político,
conforme demonstram as muitas manifestações
de chefes de Estado, mas também em nível pessoal.
Isso coloca um tremendo desafio sobre o Colégio de
Cardeais na escolha do sucessor. Espera-se alguém que
tenha qualificações para manter o papel de estadista
e o clima de diálogo entre as diversas formas de pensamento.
Mas há alguns novos desafios, como o da Engenharia
Genética e da Bioética.
Entre eles, as questões do aborto, processos de educação
sexual
(erroneamente chamados de controle da natalidade), inseminação
artificial, eutanásia, distanásia, engenharia
genética, células-tronco, clonagem e outras.
O novo Papa deverá ser firme no respeito à tradição
da Igreja, mas demonstrar suficiente abertura para não
assumir posição contrária à ciência.
O próprio João Paulo II pediu desculpas à
comunidade científica e à
humanidade por posições assumidas pela Igreja
no passado.
Há também pessoas que defendem a possibilidade
do ministério feminino em termos oficiais.
Pergunta-se: quando a Igreja Católica aceitará
a presença de sacerdotisas? Igrejas protestantes e
evangélicas, por serem de natureza mais recente, têm
adotado posições mais livres, que, mesmo adaptativas
às pressões sociais, continuam alicerçadas
na Bíblia e na teologia.
Também é preciso repensar a estrutura da Igreja
em termos evangélicos e vencer o desafio financeiro,
que existe apesar do sólido patrimônio.
Acima de tudo, espera-se que o novo Papa tenha, como dizemos
no Brasil, jogo de cintura para conduzir os destinos da Igreja
levando em conta todas as tendências, sem perder sua
identidade histórica.
Padre Jesus Hortal, Reitor da PUC-Rio
Como será o novo Papa? Se me fazem essa pergunta,
só tenho uma resposta: não sei. O máximo
que posso fazer é dizer como eu gostaria que fosse.
Alguém que continue a obra fantástica de João
Paulo II, em favor da paz e do entendimento entre os povos
e os diversos credos religiosos.
O Papa Wojtyla conseguiu, sem armas, sem violência,
apenas com a força da verdade, derrubar a separação
entre o Oriente e o Ocidente. O muro de Berlim caiu para nunca
mais ser erguido. Mas existem outros muros, às vezes
menos visíveis, mas não menos reais.
O maior é o que divide o Norte desenvolvido do Sul
subdesenvolvido, faminto e miserável. João Paulo
II lutou, publicou três encíclicas sociais, lançou
apelos à solidariedade mundial, empenhou-se no combate
à pobreza.
Mas não conseguiu atingir a meta do ideal cristão,
da fraternidade universal. Se o novo Papa conseguir derrubar
também esse muro,
haverá um futuro promissor de paz e de fraternidade
entre os povos.
Na ansiada reconciliação entre Oriente e Ocidente,
ficou incompleto o
reencontro com os cristãos orientais (os ortodoxos).
João Paulo II também buscou isso, mas não
conseguiu. Será sonhar muito pensar num novo Papa que
avance mais por esse caminho?
A atuação de João Paulo II também
foi decisiva no diálogo inter-religioso. Os dois encontros
de oração em Assis, com líderes das mais
variadas crenças, foram uma semente.
De modo especial, ele se preocupou com as duas grandes religiões
monoteístas, judaísmo e islamismo. O enfrentamento
entre o mundo islâmico e o cristão é cada
dia mais patente e ameaçador. Por que não eleger,
então, um Papa que provenha de país com forte
presença muçulmana, como muitas nações
africanas? |