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Do
objetivo religioso à vocação turística
Em
70 anos, estátua do Cristo Redentor se transformou em ícone
da cidade do Rio de Janeiro
Alexandre
Ventura
Lá
de cima do Morro do Corcovado entende-se porque o Rio é chamado
de Cidade Maravilhosa. Uma vista deslumbrante espera os visitantes
que sobem os 220 degraus em direção ao Cristo Redentor.
Um monumento que foi construído com intenções
religiosas, mas que acabou se tornando um ícone turístico.
Além de servir de referência e inspiração
para músicos, artistas e apaixonados pela grandiosidade e
beleza da estátua, "de braços abertos para a
Guanabara".
A
reação de quem passa pelo cartão-postal é
a mesma: admiração. A portuguesa Isabela Filardo,
37, de visita pela segunda vez à cidade, faz questão
de repetir o passeio ao Cristo. "É o maior símbolo do Rio, tenho
sempre que vir aqui", conta. O americano Ralph Williams, 27, se
surpreendeu com a vista da cidade lá de cima. "É inacreditável".
O paulista Marcello Lara, 24, fez coro: "Não imaginava que fosse
tão alto, e que desse para ver a cidade inteira lá embaixo".
O fascínio
que a vista do Cristo Redentor exerce em cariocas, brasileiros e
estrangeiros começou no século VXI, quando os portugueses
batizaram o morro de Pináculo da Tentação,
um século depois rebatizado de Corcovado.
Mas foi em 1859 que surgiu a idéia de construir uma estátua
no local; o padre Pedro Maria Boss chegou ao Rio, se
deparou com a beleza da vista do Corcovado e pediu recursos à
Princesa Isabel para erguer um momumento religioso. Tudo bem de
acordo com a moral católica do estado monárquico que
éramos. Mas a "redentora" não abriu a mão,
veio a República separando a Igreja do Estado, e o nascimento
da estátua teve que ser adiado por mais uns anos.
A idéia
da construção do monumento voltou à tona em 1921, para marcar
a comemoração do Centenário da Independência do Brasil no ano seguinte.
Era a oportunidade da Igreja firmar a causa do catolicismo no País.
A
intenção era fazer um monumento, em bronze, representando
Jesus Cristo abençoando o Brasil, do alto do Pão de
Açúcar. Reuniu-se
a primeira assembléia destinada a discutir o projeto e o local para
a edificação do monumento, e com ela surgiu também a primeira
dúvida: disputavam o Corcovado, o Pão de Açúcar e o Morro
de Santo Antônio. Venceu a opção pelo Corcovado, o maior dos pedestais.
A
pedra fundamental da construção do monumento foi lançada no dia
4 de abril de 1922. Quatro anos depois, as obras seriam iniciadas.
Através
de um concurso, o engenheiro Heitor da Silva Costa (foto) tornou-se
o responsável pelo projeto de construção do
monumento. Para executar a maquete definitiva da estátua
e estudar problemas de construção e de base, Heitor
vai para a Europa, onde escolhe o arquiteto Paul Landowsky para
desenvolver o projeto.
Foi organizada, então, a Semana do Monumento - uma
campanha para recolher contribuições dos católicos. As doações,
no entanto, demoraram a chegar. O Cristo Redentor levaria quase
cinco anos para ser concluído. O motivo de tanta demora? Somente
entre os anos de 1924 e 1927 várias maquetes aperfeiçoaram
o modelo inicial do monumento.
Em
1928, uma comissão de técnicos examinou estudos, projetos
e orçamentos. A armação metálica foi
substituída por uma estrutura de cimento armado, e a imagem
assumiu a forma de uma cruz. Vários
materiais foram cogitados para o revestimento da estátua, mas por
fim foi escolhida a pedra-sabão, que embora seja seja
um material fraco é extremamente resistente ao tempo e não deforma
nem racha com as variações de temperatura.
Em
1931 não se falava outra coisa na cidade. A chegada e a montagem
da estátua do Cristo Redentor e os preparativos para a inauguração
do monumento são os assuntos preferidos dos cariocas. Durante
toda a construção do cartão postal, de meados de 1926 a outubro
de 1931, o Trem do Corcovado foi o responsável pelo transporte das
peças e dos funcionários que trabalharam na obra. E chega o momento:
o
monumento do Cristo Redentor foi inaugurado no dia 12 de outubro
de 1931, no alto do Morro do Corcovado.
O
evento de inauguração (foto) teve a presença do cardeal Dom Sebastião
Leme, do chefe do Governo Provisório, Getúlio Vargas, e de todo
o seu ministério. Por iniciativa do jornalista Assis Chateaubriand,
o cientista italiano Guglielmo Marconi foi convidado a inaugurar
a iluminação do monumento, a partir de seu iate Electra,
fundeado na Baía de Nápoles, na Itália. Emitido do iate,
o sinal elétrico seria captado por uma estação receptora instalada
em Dorchester, na Inglaterra, e retransmitido para uma antena em
Jacarepaguá, no Rio de Janeiro, de onde seriam acesas as luzes do
Corcovado. No entanto, o mau tempo no dia prejudicou a transmissão
e o monumento foi iluminado diretamente do Rio de Janeiro. Nada
que tirasse o brilho da ocasião.
O ato
de consagração do monumento realizado por Dom Sebastião
Leme deixou bem claro os objetivos da estátua: evangelização
e retomada do poder da Igreja no Estado Republicano. "(...)
esta sagrada imagem seja o símbolo do vosso domínio,
do vosso amparo, da vossa predileção, da vossa benção
que paira sobre o Brasil e sobre os brasileiros (...)". Mas,
com o passar dos anos, a estátua transcende o simbolismo
religioso para se tornar um ícone da cidade. Católicos
ou não, todos se rendem à grandiosidade da obra que
reverencia o Rio de Janeiro e é por ele reverenciado.
As
medidas do monumento
Molde da cabeça do Cristo foi
parar em leilão
As
polêmicas: o Cristo Redentor é da praia, o Cristo Redentor
é Carnaval!
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