ENTREVISTA

Lindberg Farias, prefeito de Nova Iguaçu:

Bairro Escola: compromisso de todos nós com a Educação

Num evento que vai reunir professores, alunos e especialistas em educação de todo o Brasil e outros países, Nova Iguaçu vai se tornar o centro das atenções. E o prefeito, Lindberg Farias, vai aproveitar a realização do Fórum Mundial de Educação para discutir e divulgar ainda mais o conceito do Bairro Escola a união de todas as políticas educacionais, públicas ou privadas, que acontecem num bairro, e definido por ele como eixo central de seu governo.

Somos hoje um grande laboratório de uma nova forma de pensar a Educação e creio que foi esse diferencial que resultou na escolha de Nova Iguaçu para sediar o Fórum, acredita Lindberg, que tem como meta fazer de Nova Iguaçu a ‘Cidade Escola’. Nesta entrevista, o prefeito detalha este e outros projetos que Nova Iguaçu tem para a área de Educação.

 FRASES

‘As crianças fazem todas as refeições da escola, com dieta de nutricionista’

‘Identificamos que 56% dos alunos da 3ª e 4ª série não assimilavam um texto’

‘Até o Hospital da Posse tem biblioteca para incentivar o hábito da leitura’

‘Quanto mais tempo a criança passa na escola, envolvida em atividades, melhor’

‘O futuro não existirá se não investirmos em educação no presente’

 

Entrevista

LINDBERG FARIAS

Pela primeira vez, o Fórum Mundial de Educação se realiza fora de uma capital e a escolha por Nova Iguaçu se deve, segundo os organizadores do Fórum, à política educacional que a Prefeitura adotou. Qual o diferencial que levou a essa escolha?

Desde o primeiro momento de planejamento de gestão, a Educação foi colocada como eixo central do Governo. A Educação não é uma política setorial, isolada, mas a linha estratégica de Desenvolvimento do Governo, em que todas as ações de todas as secretarias convergem para ela. No conceito do Bairro Escola, eixo central do nosso governo, não apenas o Poder Público, mas toda a sociedade é convidada a ser co-responsável pelo processo educacional. Somos hoje um grande laboratório de uma nova forma de pensar a Educação e creio que foi esse diferencial que resultou na escolha de Nova Iguaçu para sediar o Fórum, um evento que vai reunir as melhores cabeças e experiências no Brasil e no mundo sobre o tema.

 

Como o Bairro Escola leva a sociedade a se sentir responsável pela Educação?

O bairro escola é o alinhamento de todas as políticas educacionais que acontecem num bairro, sejam elas públicas ou privadas. Por exemplo: no seu bairro, além das ações da Prefeitura na área social, deve haver uma igreja que trabalha com reforço escolar. Ou uma ONG que cuida de questão ambiental. Seu bairro certamente tem também espaços ociosos: a piscina de um clube que não tem movimento durante a semana; a sala de cinema que fica vazia durante o dia, o forno da padaria parado várias horas por dia. No Bairro Escola, a Prefeitura entra promovendo melhorias na infra-estrutura e integrando tudo o que já existe num projeto educacional global. O forno da padaria, por exemplo, pode ser usado num projeto de qualificação profissional. Não carece a Prefeitura construir uma padaria-escola, que seria caro. Melhor utilizar o que já existe.

"A Educação é a linha estratégica de desenvolvimento do nosso Governo"

A Prefeitura faz convênios para a utilização desses espaços. Mas isso não acaba saindo caro também?

Em alguns casos, a minha despesa de custeio chega a ser 70% menor. Porque o problema não é tanto o investimento, mas o custo que ele gera no futuro, para sempre. Construir uma piscina numa escola não é caro. O problema é mantê-la limpa, cuidada, com pessoal, vigia, todo mês, pra sempre. Isso não se justifica se você tem ao lado da escola um clube com uma piscina ociosa durante a semana. Nova Iguaçu é um município pobre, que tem baixíssima arrecadação, não temos grandes recursos financeiros, não podemos nem queremos construir grandes estruturas. Além disso, tem outro fator fundamental: o Bairro Escola leva ao comprometimento da comunidade no projeto de Educação, num ciclo que se reflete até na diminuição da evasão escolar.

Como?

O principal fator para a evasão escolar é o fato de os pais saírem de casa para trabalhar antes de os filhos irem pra aula. A criança acorda, toma café sozinho, tem que se arrumar sozinho pra escola e não vai pra aula. O vizinho vê e não fala nada porque pensa assim: "Não é problema meu. Segundo fator de evasão escolar: fliperama. A criança sai pra escola, passa em frente ao bar, vê o fliperama, resolve jogar. E não vai pra aula. O dono do bar lava as mãos. "Não é comigo", pensa.


Como convencer a população de uma cidade tão carente como Nova Iguaçu, onde 50% das residências não têm saneamento, de que a prioridade não é obra, mas Educação?

As obras de saneamento e pavimentação são importantes e já estamos com frentes em mais de 25 bairros, num total de 70 quilômetros de ruas, graças à economia que fizemos ano passado. Além disso, temos R$ 100 milhões empenhados pelo Governo Federal para obras na cidade. Mas temos uma convicção de que o principal investimento, o que mais traz retorno no futuro, é nas pessoas, principalmente nas crianças e jovens. Este investimento traz um retorno enorme porque volta no futuro com aumento do poder aquisitivo da população. Recente estudo do IBGE mostra que cada ano a mais que o brasileiro passa na escola representa um aumento médio de 16% no seu salário. É nisso que estamos investindo. Por isso abrimos o curso pré-vestibular comunitário, em parceria com a UFRJ. São 450 alunos que estão se esforçando para melhorar de vida, que querem um futuro, um diploma, e o Poder Público tem o dever de ajudar dando instrumentos para promover justiça social. Se todos tivessem acesso à boa educação, a competição no mercado seria menos desigual.

 

Mas as pessoas que vivem na pobreza, na lama, têm consciência disso?

As primeiras reuniões que fazemos para apresentar o conceito do Bairro Escola com a comunidade costumam ser difíceis, mas aos poucos as pessoas entendem e se envolvem completamente com a idéia. As pessoas estão acostumadas a receber a visita do Poder Público para ganhar alguma coisa, não para discutir um projeto. A Maria Antônia (mulher do prefeito, coordenadora dos programas sociais do Governo), contou que, certa vez, numa dessas reuniões, ela insistia em perguntar o que a comunidade tinha a oferecer para o Bairro Escola e ouvia só que não tinha: que não tinha remédio, que não tinha asfalto, não tinha ônibus, não tinha nada. Até que o homem que mais reclamava disse:"Aqui não tem nada, moça, a única coisa que eu sei é fazer pipa. Serve?". Servia. O Bairro Escola do lugar vai ter uma oficina de pipa e o sujeito que dizia não saber fazer nada vai ensinar.

 

O Bairro Escola vai atingir a toda a cidade?

Essa é a meta, fazer de Nova Iguaçu a ‘Cidade Escola’. Mas é impossível fazer tudo ao mesmo tempo. Então optamos por começar por Tinguá, que reúne condições interessantes para a experiência piloto e que já está funcionando. O horário integral já começou utilizando os equipamentos disponíveis ao redor da escola: os computadores no espaço da Associação de Moradores, que tem hoje o Telecentro, a quadra do clube, a sala de cinema da ONG, etc. O tempo integral é importante porque a rua deseduca a criança. Quanto mais tempo ela passa na escola, envolvida em atividades, num ambiente saudável, melhor. Até julho do ano que vem, estendemos o Bairro Escola a mais seis bairros, que juntos reúnem 15 escolas e atingem 25% dos 70 mil alunos da rede municipal. São: Centro, Comendador Soares, Austin, Cabuçu, Cerâmica e Miguel Couto. O tempo integral em Nova Iguaçu, em breve, será uma realidade.

PREFEITURA comprou recentemente mesa especial para auxiliar na alfabetização de crianças com informática

Muitos tentaram implementar o projeto da escola em tempo integral, mas as iniciativas não avançaram. Qual a dificuldade?

Embora falem muito do alto custo, creio que a principal dificuldade é política, que infelizmente leva, na maioria das vezes, à descontinuidade dos programas do governo anterior. Mas aí também nos diferenciamos. Primeiro, porque da maneira que a gente está fazendo, aproveitando espaços ociosos, é mais barato do que construir grandes estruturas com alto custeio. Segundo, porque quando você compromete a sociedade, o projeto fica menos vulnerável aos humores da política. Pois não se trata de um projeto do Lindberg com Nova Iguaçu. Mas de Nova Iguaçu com Nova Iguaçu. Os resultados com investimentos em Educação demoram às vezes uma geração para aparecer. Mas veja o caso de Coréia, Índia, Chile, que fizeram o dever de casa e hoje colhem os frutos. Em Nova Iguaçu recentemente tivemos dificuldades em preencher as vagas para 60 repositores de estoque no nosso banco de empregos. Sabe por que? Baixa escolaridade dos candidatos. Gente que até é alfabetizada não é incapaz de preencher uma ficha cadastral. Se não começarmos a agir, nunca vamos nos emancipar socialmente.

 

É o famoso analfabetismo funcional..

Uma verdadeira tragédia: identificamos ano passado que 56% crianças na 3ª e 4ª séries não conseguiam assimilar um texto. Mas formamos turmas de reforço escolar, temos investido na valorização dos profissionais, os diretores de escolas hoje são eleitos e estamos aos poucos melhorando a qualidade da Educação. Adquirimos em outubro, na Bienal do Livro Infanto-Juvenil, 100 mil livros para equipar bibliotecas, num processo que aproximou os jovens de um universo de leitura que eles desconheciam. Até o Hospital da Posse tem hoje biblioteca para incentivar o hábito da leitura. Até o fim do ano, vamos criar 100 telecentros (60 em escolas e 40 em associações) para promover a inclusão digital numa cidade onde apenas 3%¨das crianças até o ano passado tinham tido algum contato com computador na vida. Recentemente, compramos mesas que ajudam a alfabetizar as crianças através do uso da informática. Porque a Escola tem que oferecer atrativos para a criança. No mundo moderno, cuspe e giz já não são mais suficientes para manter a criança atenta na aula.

 

Os resultados já começam a aparecer?

A taxa de evasão escolar, por exemplo, caiu, em um ano, 75%, o que é um dado positivo.

 

Isso tem a ver com a melhoria da merenda escolar?

Tem também. Merenda boa faz a criança ir pra escola e Nova Iguaçu não é diferente. Antes, serviam quentinha de macarrão frio com lingüiça no café da manhã. Hoje, as crianças fazem todas as refeições, com dieta elaborada por nutricionista, feita por merendeiras em cozinhas nas próprias escolas. Mas há outros fatores que contribuíram para a diminuição da evasão, como oferecimento de atividades extracurriculares atrativas, como os cursos de teatro e dança ministrados pelo grupo Nós do Morro, do Vidigal, que aqui em Nova Iguaçu passou a se chamar Nós da Baixada. Já são 56 os monitores treinados que dão aulas para 1.500 crianças, incentivando as potencialidades artísticas e criativas de jovens. Também a integração das famílias à escola ajuda na diminuição da evasão escolar. Refiro-me à abertura de 35 escolas nos fins de semana, o programa Escola Aberta. Enquanto os filhos se divertem, os pais aprendem. No Fórum Mundial, o resultado das oficinas será vendido em estandes. O Fórum mostrará um pouco do que fazemos e ganharemos experiências. Vamos aproveitar idéias para o futuro, que não existirá se não investirmos em Educação no presente.


 
 
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