ENTREVISTA

Pierre Fonkoua, representante da Unesco

'Incentivo a projetos educacionais comunitários'

Professor com doutorado em Ciência da Educação nas universidades de Caen, na França, e Montreal, no Canadá, o camaronês Pierre Fonkoua, 54 anos, representante da UNESCO no Fórum Mundial da Educação, foi um dos palestrantes da última confer~encia, que abordou o tema "Estado e Sociedade na Construção de Políticas Públicas: Por uma Plataforma Mundial de Lutas pelo Direito à Educação".

Grande orador, falou pouco Mas, nem por isso, deixou de arrancar aplausos da platéia por diversas vezes ao refletir sobre a crise de autoridade na educação, durante a conferência de encerramento do Fórum Mudial de Educação. Fonkoua defendeu enfaticamente a valorização do profissional do ensino formal: o mestre, o professor.

Segundo ele, após anos de concentração de autoridade, hoje o mundo vive um liberalismo na área tão ou mais nefasto que a concentração de poder, por também gerar dependência, perda de autonomia, falta de iniciativas individuais e crise de autoconfiança.

"Eu pergunto: quem orienta a educação? Quem decide o que fazer?", afirmou, lembrando que é preciso repensar a plataforma educacional. A crise de autoridade leva à pensar em novas formas de educação. E indicou um site onde artigos seus aprofundam o tema (www.rocare.org).

Em entrevista ao jornal O DIA, Fonkoua aponta a educação extra-escolar e a valorização do educador no ensino formal como caminhos para tentar superar a crise de autoridade. E defendeu que a formação de educadores seja reconhecida como um valor essencial de todas as sociedades.

Entrevista

PIERRE FONKOUA

Como o senhor avalia o sistema educacional brasileiro?
O modelo brasileiro se assemelha um pouco com o sistema educacional de Camarões. Vivo em um país cuja taxa de analfabetismo é superior a 10% da população e onde é grande a evasão escolar. Penso que deveria haver maior integração entre os programas de educação que deram certo, tanto no Brasil como em países africanos.

O senhor é favorável a programas como o Bolsa Escola?
Não conheço a fundo os programas assistenciais brasileiros, mas os vejo com reservas. O prolongamento de programas como este pode representar a diminuição de investimento em educação. É claro que devemos pensar de forma democrática e ajudar aos mais necessitados, mas devemos ter uma preocupação com a formação do aluno, desde a entrada até a saída da escola.

O senhor é favorável ao sistema de cotas para negros nas universidades, como está acontecendo no Estado do Rio de Janeiro?
Sou contra. Não se resolve o sistema da discriminação reservando vagas na universidade. Devemos reforçar o ensino na base, oferecendo melhores condições para todos os alunos, independente se é branco ou negro. Muitas pessoas negras que se formam nas universidades continuam a ser discriminadas, seja em qualquer profissão.

Que caminhos o Fórum Mundial da Educação pode apontar para o futuro?
Devemos buscar a maior valorização da classe profissional. Os professores têm que ser mais valorizados, os governos têm que encontrar formas de motivá-los, fazendo com que melhore a autoestima e o ensino público.

O que é preciso para melhorar o atual modelo educacional?
Melhorar o sistema de comunicação com os professores e incentivar os cursos profissionalizantes, os projetos de educação comunitária que já existem e funcionam bem no Brasil.

 
 
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