PESQUISA

A violência urbana e a criminalidade exercem forte influência no ambiente ao redor das escolas

Um em cada três estudantes já viu uma arma

A presença de armas nas escolas públicas é familiar para alunos e professores. A constatação é da pesquisa "Cotidiano das Escolas: Entre Violências", divulgada durante o Fórum Mundial de Educação, em Nova Iguaçu. Para a pesquisa, foram entrevistados, em 2003, 9.744 alunos e 1.678 adultos, de cinco capitais capitais (Belém, Salvador, Rio de Janeiro, São Paulo e Porto Alegre) e do Distrito Federal.

De acordo com o documento, a presença de armas está associada às disputas e brigas dentro do ambiente escolar. Apesar de elas significarem demonstração de virilidade e força, características associadas à masculinidade, as armas também estão presentes entre as meninas.

A pesquisa aponta que 35% dos alunos e 29% dos adultos já viram algum tipo de arma na escola. As armas brancas (facas, canivetes, punhais etc) são as mais comuns. Ainda assim, as armas de fogo têm uma forte presença no ambiente escolar. A pesquisa revela que 12% dos estudantes, mais de 204 mil, já viram um revólver no colégio. Esse número cai para 10% quando a pergunta é feita para um adulto.

Outro dado importante da pesquisa é a proporção dos alunos que admitem ter entrado com armas na escola. Do total dos estudantes ouvidos, 3% admitiram ter levado um canivete para a escola, e apenas 1% assume ter portado revólver. Aqueles que assumiram o comportamento disseram que trata-se de uma forma de proteção e que não tinham intenção de praticar algum crime.

A socióloga Miriam Abramovay, coordenadora da pesquisa, informa que o estudo foi realizado somente em escolas públicas urbanas, estaduais e municipais, com pelos menos 500 alunos. Isso porque, segundo ela, apresentam maior grau de vulnerabilidade devido a carência de recursos humanos e materiais, o alto índice de abandono, a evasão e reprovação, a maior diversidade cultural, e por menos homogêneas do que os estabelecimentos particulares.

A pesquisa utilizou um nível de confiança de 90% e tem margem de erro de 5%. O trabalho é um projeto conjunto do Ministério da Educação, Unesco e Observatório de Violência nas Escolas.

Táfico é comum no entorno das escolas
Ainda segundo a pesquisa, 9% dos 9.744 alunos ouvidos nas escolas públicas urbanas estaduais e municipais de Belém, Salvador, Rio de Janeiro, São Paulo, Porto Alegre e do Distrito Federal disseram que existe tráfico em suas escolas.

A coordenadora do trabalho chama atenção para o fato de que 58% dos estudantes declararam não saber se existe tráfico. Para ela, esse resultado pode sugerir a influência da "lei do silêncio", como conseqüência do medo em falar do assunto. Miriam destacou, ainda, que a tensão provocada pela violência é um fator importante a ser considerado nas causas da baixa qualidade do ensino nas escolas públicas urbanas.

Outro problema detectado pela pesquisa diz respeito à presença de gangues dentro das escolas. Miriam explicou que, pelos depoimentos tomados nas escola, os grupos não são formados no espaço escolar, mas fora dele. A escola apenas sofre as conseqüências dos conflitos e brigas externas, que são levadas para o interior do ambiente escolar.

Esses grupos, segundo ela, não consideram os limites da escola como local de formação educacional e desconhecem a autoridade do professor. Os professores afirmam que os alunos que integram essas gangues são os maiores responsáveis pelo clima de tensão nas escolas.

Confiança baixa nos professores e diretores
Apenas 11% dos 9.744 alunos das escolas do ensino fundamental e médio de Belém, Salvador, Rio de Janeiro, São Paulo, Porto Alegre e Distrito Federal disseram procurar um professor ou um diretor quando têm algum tipo de problema. O resultado fica abaixo dos 14% entre os que afirmaram não contar para ninguém um problema na escola.

A família, em contrapartida, aparece como a principal referência: 58% dos alunos falam para os pais as dificuldades vividas no ambiente escolar. Segundo a coordenadora do estudo, a socióloga Miriam Abramovay, os estudantes são enfáticos quando se referem a conflitos, inimizades e intolerâncias.

Para a pesquisadora, isso sugere um implícito desconforto dos alunos com essas situações. Ela destacou que são muitos os que não gostam dos colegas. Antipatias que surgem principalmente pelo desrespeito. Miriam disse ainda que os professores também enfatizam a falta de respeito como um dos maiores problemas das relações no ambiente escolar.

Discriminação rcaial també é uma realidade
Xingamentos, brincadeiras e apelidos. É assim que se revela a discriminação racial entre alunos de escolas públicas. Os dados demonstram que 5% dos 9.744 alunos pesquisados nas escolas públicas urbanas estaduais e municipais de Salvador, Belém, Porto Alegre, Rio de Janeiro, São Paulo e Distrito Federal afirmaram ter sido vítimas de rejeição e discriminação por causa da cor da pele.

Esse percentual cresce para 13% quando os alunos se identificam como negros. Isso indica, segundo a pesquisa, que os negros são os que mais se destacam ao assumir que sofrem preconceito por causa da cor. Dos que se disseram pardos, cerca de 4% afirmaram ter sofrido discriminação racial.

Para Miriam Abromavay, esse dado pode indicar gradações na aceitação do negro, conforme a cor da pele. Ela informou que o preconceito racial é manifestado de várias formas. A principal delas é o xingamento de cunho racista - 9% dos alunos revelaram terem sido xingados por causa de sua cor por outros colegas.

Esse percentual sobe para 22% quando a vítima do xingamento se diz negra e é de 6% entre os alunos que se auto-identificam como brancos. Miriam Abromavay disse ainda que o preconceito racial também apareceu sob a forma de apelidos e brincadeiras.

Outra constatação importante observada na pesquisa, de acordo com a socióloga, foi quando se associou raça e gênero. "As alunas negras são vítimas de discriminação não somente em relação às colegas brancas, mas também em relação aos alunos negros. Elas são preteridas pelos garotos e se tornam alvos de humilhações e gozações", explica.

Para espantar a tristeza

PADRE Roy acredita que evento apagará marca deixada pela chacina

O padre Pierre Roy, da secretaria executiva do Fórum Mundial da Educação, acredita que o encontro tem a responsabilidade de apagar a tristeza deixada pela Chacina da Baixada, quando 29 pessoas foram assassinadas na noite 31 de março de 2005, em Nova Iguaçu e Queimados.

Cerca de um ano após esse fato lamentável, a Baixada Fluminense renasce com a esperança de construir uma sociedade com mais justiça, discutindo alternativas democráticas através da educação", acredita ele.

 
 
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