Último palestrante a falar durante o painel de financiamento e fomento, que teve a participação de representantes da Finep e do BNDES, o professor Marcelo Cavalcanti, diretor de Tecnologia da Fundação de Amparo à Pesquisa do Rio de Janeiro (Faperj), reconheceu que há poucos recursos disponíveis (menos de 5% dos recusrsos da Faperj são direcionados para a área de tecnologia), que o pouco que há já é um grande avanço, se olharmos para o passado, e que é preciso fazer mais, muito mais. Mas lembrou a todos que, além da crítica, é preciso propor soluções, cobrar soluções. E propôs a criação de uma rede para pedir mais recursos.
"O Rio pode ser a capital do Brasil na Era do Conhecimento, como São Paulo o foi na Era Industrial. Mas precisamos nos organizar", disse Marcelo. "Como fazer isto? Melhorando a nossa argumentação. Mostrando efetivamente o que aquele investimento trouxe de retorno real para a sociedade. Temos que mostrar que é um bom negócio financiar o conhecimento, a indústria de software, a da cultura".
Só desta forma será possível, segundo Marcelo, provar que a garantia real é uma balela. Não garante absolutamente nada. Por isso, para ele, a Finep é a agência que, de longe, mais tem financiado a inovação, assumindo o risco. "Hoje nenhumm investidor olha só o balanço de uma empresa. Ele olha outros critérios", afirma Marcelo.
"Nós temos que entrar neste debate de como financiar o conhecimento. É um debate que ainda está distante da nossa sociedade. Vocês têm que nos ajudar, a nós que estamos do lado de cá do balcão, a mudar esta realidade. O governo precisa reconhecer que o conhecimento e as redes são hoje os propulsores do desenvolvimento econômico", disse. "Vamos criar um movimento, uma rede, para convencer os governandes que as áreas em vocês atuam, de tecnologia da informação, está entre as que geram mais emprego, geram trabalho. Aqui no Rio, temos uma indústria de software ativa. Temos que convencer as pessoas de que o que fazemos pode dar um enorme retorno social, e parar com o chororô. É preciso propor alternativas", propôs.
"Precisamos pensar que país nos queremos ser daqui a cinco anos? O nosso pacto tem que ser o de que, em 210, todas as crianças em idade de freqüentar o nível médio estejam no nível médio. Foi o que a Coréia fez há 25 anos atrás", argumentou Marcelo.
"Em 1980 a Coréia não tinha nada. Qual é a matéria prima que a Coréia tem? Tem petróleo? Tem não sei quantos milhões de terras agricultáveis? Tem oito mil quilômteros de costa para pescar? Tem minério de ferro? Tem soja? A Coréia não tem nada! A Coréia só tem coerano. A única coisa em que eles podiam investir era nos coeranos. E foi o que eles fizeram. Em 1983, 1% dos coreanos em idade de freqüentar uma escola estava na escola. Em 95, 70% das pessoas em idade de freqüentar uma universidade estava na universidade. Resultado: em 1980, todos os nossos indicadores econômicos e sociais eram melhores que os da Coréia. Uma década depois, já eram piores. E continuaram muito piores duas décadas depois. O Brasil não será um grande país só exportando soja. O Brasil está ficando para trás", concluiu.
Antes dele, Regina Maria Linhares, do BNDES, apresentou as condições do Prosoft Comercialização para o financiamento de produtores de software livre que, segundo ela, só foi possível graças a uma pareceria com a Softex e a Assespro. Durante o debate, posterior ao painel, Regina esclareceu que quem está sendo financiado no Prosoft Comercialização é o cliente, que comprará o software e os serviços de suportes, asistência técnica, etc. Ele é que contratará o crédito e se entenderá com os agentes financeiros. Mas, para isto, a empresa de software terá que credenciar o seu produto no BNDES. Para credenciar o software, o BNDES exigirá da empresa que ela prove que aquele software foi desenvolvido no país, por pessoa aqui residente e que detém a propriedade daquele software. Significa deter o direito moral (ser o autor do software) e deter o direito patrimonial (que pode ser negociado, vendido para terceiros que também poderá explorá-lo economicamente).
"Hoje, no Prosoft Comercialização, o BNDES só consegue apoiar a empresa de software livre como uma empresa de serviço", explicou Regina. "A gente só consegue dar o apoio direto à empresa de software livre através do uso do cartão BNDES. No caso do Prosoft Comercialização, o apoio se dá através da contratação, pelo cliente, de serviços de migração para software livre, implantação ou treinamento. Nós ainda não conseguimos credenciar o software livre como um produto, porque não reconhecemos o direito patrimonial do software livre", explicou Regina.