
Rio - A noite tinha tudo para ser atípica. E foi. Na quarta-feira em que Ronaldo, chamado de "Gordo" pela torcida, estreou no Pacaembu pelo Corinthians, o estádio paulistano recebeu uma movimentação fora do comum. "Está atípico, companheiro. Está atípico", repetia um dos funcionários que fiscalizavam a entrada dos carros no portão 23, reservado aos atletas, convidados e imprensa. Quem ouvia era um integrante da própria delegação corintiana, inconformado com o minucioso processo de identificação pelo qual passava.
Dentro do Pacaembu, a torcida não era a mesma de sempre. Houve quem confundisse o argentino Escudero. "O Armero não, Mano", disse um corintiano de primeira viagem, ao confundir o lateral-esquerdo do Corinthians com o colombiano do Palmeiras em uma das substituições feitas pelo técnico Mano Menezes. Havia também torcedores mirins, gringos, senhoras e senhores que se encantaram com o show pirotécnico das torcidas organizadas na curva atrás do gol.
Mas a atração era mesmo Ronaldo. O centroavante foi escalado entre os titulares e logo o segundo a tocar na bola. Apesar de isolado no ataque, buscou o jogo, caindo pelos dois lados do campo, e até voltou para ajudar na zaga. Tudo em um ritmo cadenciado, com direito a conversas com a zaga do São Caetano no meio-de-campo. Tudo sob o coro dos torcedores que pediam bola por ele. "Dá no Ronaldo" foi o que mais se ouviu na arquibancada.
Quando a bola era enfim alçada para Ronaldo, a defesa do São Caetano teimava em estragar a festa. Em uma das raras bobeadas da zaga adversária, o atacante invadiu a grande área e só foi parado pelo goleiro. Diante de milhares de torcedores estáticos, um daqueles jogadores de futebol diferenciados quase marcara o seu primeiro gol com a camisa alvinegra no Pacaembu.
No intervalo, a pausa para pegar a cerveja sem álcool foi interrompida apenas pelo anúncio de substituição que vinha do alto-falante. "Me vê três dessa coisa nojenta. Não sei por que ainda tomo isso, é que nem sair com a irmã", dizia um do bando de loucos, que virou o rosto para olhar o placar. Sai Boquita, entra Dentinho. "O Gordo vai para o segundo tempo", comemorou o torcedor dono das três cervejas.
O apelido carinhoso da torcida a Ronaldo realmente ganhou força. Ainda sem a forma física ideal, o próprio atacante já o aceita. Do resistente alambrado do Pacaembu, alguns corintianos gritavam e esperavam um olhar do centroavante cheinho o tempo inteiro. No comecinho da segunda etapa, Dentinho cruzou da direita, Jorge Henrique deixou passar, e a bola caiu nos pés do Fenômeno. Com calma, ele definiu a vitória e então os olhou feliz.
"Ronaldo! Ronaldo! Ronaldo". A torcida agradecia ao atacante pela virada e volta por cima. Entre a consciência de que Ronaldo não demonstrou seu melhor futebol e a certeza de estarem diante de um craque, os corintianos se abraçavam fortemente. "O Gordo é o cara. O que o Escudero tem de amarelo, ele tem de gol", rematou mais um fiel corintiano, ensopado pela chuva que caía na capital paulista.