Luciano Mello, Marluci Martins e Raphael Roque
Rio - O que deveria ser um direito excepcional virou regra no futebol do Rio, e o Ministério Público está disposto a intervir. A farra da meia-entrada para estudantes cresce a cada ano: já representa 85% das vendas, segundo dados dos clubes. A média era de 30% até 2001, quando a emissão de carteiras ficava sob o controle da União Nacional de Estudantes (Une) e da União Brasileira de Estudantes Secundaristas (Ubes).
Como boa parte desses ingressos vai parar nas mãos dos cambistas, o MP já cobrou explicações da Suderj, da Ferj, e está disposto a sentar com os clubes para encontrar soluções. “Acho que eles deveriam ser os maiores interessados em acabar com isso, já que o prejuízo vai para o bolso deles. Quero entender o mecanismo da venda, como as coisas funcionam. Assim, podemos pensar em mudanças no sistema”, afirmou o promotor Carlos Andresano.
Segundo a Medida Provisória 2.208/2001, qualquer documento de identificação expedido pelas instituições de ensino no País é válido para garantir o desconto em estabelecimentos de diversão e eventos culturais, esportivos e de lazer. Teoricamente, só pode ser vendido um bilhete por carteira, e sua apresentação na compra é inprescindível.
Vários clubes, no entanto, decidiram ignorar a determinação e passaram a vender bilhetes pela metade do preço sem exigência da carteira. Na rodada do último fim de semana, três jogos (Macaé x Friburguense, Boavista x Americano e Cardoso Moreira x Cabofriense) tiveram públicos formados exclusivamente por estudantes, segundo borderô divulgado no site da Ferj.
Mesmo nas partidas em que há venda informatizada e a carteirinha é exigida, diversas falhas na fiscalização permitem a farra dos cambistas.
Em visita a bilheterias dos estádios e pontos de venda, a reportagem do ‘Ataque’ comprou mais de um ingresso com a mesma carteira de estudante, com documentos de terceiros e até sem nenhuma identificação, como pode ser visto no quadro ao lado. Como não há nenhuma verificação nas roletas, qualquer um pode comprar meia-entrada dos cambistas e ingressar normalmente no estádio.
As artimanhas não param por aí, e os próprios clubes demonstram conhecê-las. “Já ficou famosa a fila de crianças na bilheteria na hora da saída do CIEP em frente à Gávea. Os garotos compram os ingressos e os repassam a cambistas, que, em troca, dão R$ 2 a cada criança”, revelou Flávio Pereira, coordenador de arrecadação do Flamengo.
O Fluminense sofre do mesmo mal, segundo seu superintendente geral, Carlos Henrique Corrêa. Ele nem estranha mais a quantidade de alunos da Escola Anne Frank, em Laranjeiras, na fila para comprar ingressos no clube.
“Se uma arquibancada custa R$ 30, o cambista dá R$ 2 ao estudante, para que compre meia-entrada. Ou seja: o ingresso para ele sai por R$ 17, e é vendido por R$ 20 ou R$ 25. Mais barato, portanto, do que a entrada vendida nas bilheterias”, destacou o dirigente do Fluminense.
São Januário: três meias, nenhuma carteira
“O sistema em São Januário é o mais convidativo à compra irregular. Cheguei ao estádio às 15h30 para o jogo contra o Volta Redonda. Ao me aproximar, os bilheteiros já gritavam de longe (‘meia-entrada!!!’). Ainda esbocei mostrar o documento de uma outra pessoa, mas antes que os tirasse do bolso, os três ingressos já estavam na minha mão. Ali perto, cambistas vendiam a meia-entrada com 50% de acréscimo, mas ainda assim mais barata que a inteira. Passei pela roleta sem ser importunado”. Raphael Roque
Maracanã: duas meias, uma carteira
“No dia 28, comprei ingresso de cadeira para o clássico entre Bota e Flu às 11h50, nas Laranjeiras. A bilheteira digitou o documento no sistema. Porém, 16 minutos depois, em General Severiano, adquiri outro bilhete com a mesma carteira. A funcionária nem tocou no computador para ver se uma entrada já havia sido comprada com aquele documento. No dia do jogo, tentei comprar outro ingresso no Maracanã, mas a funcionária conferiu o documento no sistema e se negou a vender. Na roleta, passei sem mostrar o ingresso a ninguém”. Luciano Mello
Engenhão: Uma meia, outra carteira
“No Engenhão a compra com carteira de estudante de uma outra pessoa foi feita sem problemas. Antes do jogo contra o Cardoso Moreira, cheguei à bilheteria do setor sul e comprei meia-entrada. Repeti o procedimento no setor norte. Uma questão estranha surgiu quando tentei comprar dois ingressos com duas carteiras diferentes. A funcionária acertou ao não aceitar vender, mas deu a estranha justificativa de que só não podia fazê-lo porque os donos dos documentos não eram parentes. Na roleta, a entrada ocorreu sem verificação do documento”. Raphael Roque