Rio - O técnico Bernardinho costuma dizer que cada ano é mais difícil que o anterior, à frente da Seleção masculina de vôlei. E 2007 não foi diferente. O time seguiu vencendo: conquistou a Liga Mundial, o Pan do Rio e a Copa do Mundo, assegurando a vaga para os Jogos de Pequim em 2008. Mas a temporada foi turbulenta, com o corte do levantador Ricardinho. Em entrevista ao ‘Ataque’, o treinador relembra as conquistas e os momentos difíceis de 2007 e já lamenta a provável despedida de muitos jogadores em 2008. Sobre o seu próprio ciclo à frente da Seleção, ele diz que ainda não chegou a uma conclusão, descarta uma experiência no futebol e conta que recebe sondagens do mundo todo. Sua única certeza é que quer continuar nas quadras. E garante: “Não há risco maior do que continuar na Seleção. Quando ganhamos já nem falam mais”.
— Qual o balanço de 2007?
— Em termos de resultados, foi muito bom, o que é conseqüência do trabalho, tanto no Rexona quanto na Seleção. Foram muitos títulos com a Seleção. Não conquistamos a Copa América (quando o Brasil jogou com um time misto), mas foi uma bela trajetória com a garotada. E conseguimos a classificação para a Olimpíada de Pequim. No Rexona, também tivemos a evolução de algumas jogadoras que foram chamadas para a Seleção, como a Thaisa e a Regiane. Mas foi um ano de turbulência com o afastamento do Ricardinho da Seleção. Isso gerou muita polêmica e gera até hoje. Mas fiz o que achei que tinha que ser feito. Foi um ano de aprendizado.
— Foi o seu ano mais difícil com a Seleção masculina?
— Cada ano é mais difícil. A cobrança só aumenta. Mas temos de valorizar o trabalho. O legado que essa geração deveria deixar é a importância do time. Existem coisas maiores que os interesses individuais. Não existe um atalho para conseguir as coisas, só trabalho e perseverança.
— Você passou boa parte do ano tendo de responder a perguntas sobre o Ricardinho. Isso o incomodou?
— Não. O que me incomoda são as opiniões levianas, a acusação de que sou autoritário e colocar meu filho (Bruno, levantador que ganhou lugar na Seleção após o corte de Ricardinho) nessa história toda. E todo o mundo o colocou nessa história. Recebi um e-mail de uma senhora que elogiava a minha coragem por ter colocado a carreira do meu filho em risco. Mas não havia outra coisa a ser feita. Se eu tivesse perdido o Pan-Americano e a Copa do Mundo, seria crucificado.
— O Marcelinho também sofreu muita pressão por ter entrado como titular no lugar do Ricardinho...
— Ele sofreu, com certeza. Mas disse a ele para não se preocupar porque, se há alguém responsável pela mudança, sou eu e não ele.
— E os bons momentos da temporada?
— O Pan do Rio foi uma conquista muito importante. A final, pelo ambiente em si, foi muito especial. Na Copa do Mundo, o time jogou de forma espetacular contra a Bulgária. Tivemos momentos de tensão, mas o importante é ter prazer no processo. E eu continuo tendo prazer. Cheguei do Japão na terça-feira retrasada e saí meio escondido da Fernanda para dar um treino no Rexona.
— Você se vê em outra função sem ser a de treinador?
— Não. O que eu quero é continuar nas quadras.
— E, pessoalmente, como foi o ano de 2007?
— Foi bom, com meu filho, com a milha filha (Júlia, 6 anos). A Fernanda passou três meses fora (atuando nas finais do Espanhol pelo Murcia), mas tive um ano bom e sereno com a família. Elas estiveram comigo no Japão e foi bom tê-las por perto. Não quero me privar desse convívio.
— Você já recebeu proposta da China e recusou para ficar no Brasil. Prefere priorizar esse convívio familiar?
— Sim. Há várias sondagens, de todo lugar que você possa imaginar. Diz um lugar aí...
— Itália?
— Itália, Rússia, Turquia, Grécia...
— De clubes ou seleções?
— Clubes, seleções, universidades dos Estados Unidos.
— E alguma dessas sondagens atraiu você?
— Não, nenhuma.
— E no futebol você não pensa em trabalhar?
— Não.
— Por falta de vontade ou porque seria arriscado?
— Não é pelo risco, não. Risco existe em todos os lugares. E não há risco maior do que continuar na Seleção. Quando ganhamos, já nem falam mais. Um cara no aeroporto me disse que ficava tranqüilo vendo os jogos da Seleção porque já sabia dos resultados. Eu respondi: ‘Então me diz o resultado, porque eu sofro sempre’.
— Ano que vem, as finais da Liga Mundial serão em casa. É uma preocupação?
— Minha idéia é que não fosse feito aqui porque há muita perda de foco. O ideal seria nos isolarmos um pouco. Mas, por outro lado, poderemos usar a primeira fase mais com um teste, pois já teremos vaga nas finais. E, depois, tem a Olimpíada. Vai ser um misto muito grande de expectativa e tristeza. O grupo não vai ser o mesmo depois. É triste se afastar das pessoas, mas é algo natural.
— E você pensa em encerrar seu ciclo na Seleção?
— Não sei o que vou fazer. Nunca disse que iria me despedir em Pequim. Ainda não cheguei a um pensamento mais conclusivo sobre isso. Sempre haverá desafios. O primeiro foi a continuidade. Depois, teremos a renovação.
— É costume seu escrever para os jogadores no fim do ano. Como será a mensagem de 2007?
— Vou escrever coisas individuais, com um agradecimento. Vai ter um pouco de reafirmação dos nossos princípios e um alerta sobre o futuro.
— Qual o pedido para 2008?
— Equilíbrio e serenidade.