Danielle Rocha
Rio - Desde muito pequenos os cinco filhos de Dona Ivete aprenderam a ter responsabilidade e espírito de união. Houve um tempo em que a vida foi difícil para a família Barbosa. Todos trabalhavam para ajudar em casa. Leandrinho deu sua contribuição na feira, mas um irmão viu nele potencial para mais.
Arthur tinha o sonho de transformar o caçula num grande jogador de basquete e acabou ganhando o apoio familiar. O investimento deu certo.
Naquele ‘time caseiro de basquete’, todos os irmãos deram sua cota de sacrifício para que Leandrinho brilhasse. Seus pais também. A maior recompensa veio nesta temporada, com a conquista do prêmio de Melhor Sexto Homem da NBA.
“Não tínhamos dinheiro. O Arthur o levava para treinar de ‘cavalinho’, porque não tinha como pagar a gasolina. Não sei nem como explicar como é a sensação de como foi vê-lo ganhar aquele reconhecimento. Quando ouvi o nome dele ser chamado para ganhar o troféu, pensei que fosse cair dura. Chamaram os paramédicos e me tiraram do ginásio de cadeira de rodas”, ri Dona Ivete.
Mãe zelosa, a ex-massoterapeuta e cromoterapeuta, que também fazia tricô para vender no quartel de Arthur, fez de outro filho seus olhos e ouvidos nos EUA. Marcelo deixou a faculdade de Psicologia e o emprego para acompanhar Leandrinho. Não se arrepende de nada.
“Cuidei dele quando era pequeno, porque nossa avó adoeceu e minha mãe tinha que ficar no hospital com ela. Eu tinha 13 anos, acordava cedo, levava ele no parquinho e ligava para minha irmã para saber como fazia o almoço. Depois, o deixava na vizinha para ir para a escola. Não tive opção, mas acho gratificante o que está acontecendo. Ele foi um projeto da família”, orgulha-se.
Mais ainda porque o irmão virou exemplo para tantos outros meninos de famílias humildes, que moram no Jaraguá, periferia de São Paulo. “Alguns amigos cresceram e pegaram empregos.
Outros foram presos. Tinha gente que chamava ele de vagabundo, ninguém acreditava em basquete. Falavam que era para ele ir trabalhar porque aquilo não ia dar em nada. O esporte só fez bem para ele e para nós.
Hábitos não mudam, apesar da fama
Nem o sucesso, a fama e o dinheiro fizeram Leandrinho mudar seus hábitos. Até hoje, Marcelo tem de cuidar da roupa que o ala-armador usa embaixo do uniforme do Phoenix Suns. “Ele joga com o calção da época do Bauru, todo judiado, e uma camiseta Hering. Em Bauru, eu lavava tudo a mão, de um dia para o outro. Agora, temos máquina”, brinca.
Nos primeiros meses de EUA, a preocupação de Marcelo era descobrir como era fígado em inglês. Precisava preparar a vitamina dos tempos de infância, inventada pela mãe. “Leandrinho pegou anemia e estava ficando branco. Peguei fígado cru de galinha, que também é afrodisíaco, bati, coei, peguei o caldo e misturei no feijão. Quando estive lá, deixei 50 copos congelados. Não é ruim, não”, diz Dona Ivete.
Sempre que pode, ela tenta convencer os companheiros de time do filho a provarem a invenção. “Eu falo para o Steve Nash: você tem que experimentar! Ele faz cara feia e fala: no, mama!”. ri.
Mas, no prato, a comida da família é sucesso entre os jogadores do time. “Uns queriam fazer até marmita”, diverte-se Marcelo.