24/08/2008 09:58:00

Patrocinadores de atletas brasileiros que fracassaram se dizem satisfeitos com retorno

Janir Junior e Raphael Roque

Rio - “Antes mesmo de o Diego Hypólito entrar no ginásio em Pequim, nós já tínhamos recuperado quatro vezes mais do que o nosso investimento nele. Em termos de números, nem precisávamos da Olimpíada”. A análise de Márcio Victer, gerente de Comunicação e Marketing da Golden Cross, mostra que a visão dos patrocinadores pode ir muito além do brilho das medalhas.

De acordo com especialistas do mercado, só de participarem dos Jogos Olímpicos, os atletas brasileiros já atraem atenção suficiente para compensar o investimento. Além da mídia espontânea, que é a exposição da marca sem a necessidade da compra de espaço publicitário, os contratos exploram direitos de imagem dos atletas em comerciais e eventos de endomarketing das empresas.

“O investimento em marketing esportivo sempre dá um retorno muito bom. Patrocinar atletas é eficiente. Só de ele participar da Olimpíada já vale a pena”, afirmou Carlos Werner, diretor de Marketing da Samsung. É claro que um bom resultado nos Jogos Olímpicos pode multiplicar o retorno financeiro. A empresa de eletroeletrônicos, por exemplo, apostou e ganhou na loteria. No início do ano acertou com o nadador Cesar Cielo. Segundo fontes do mercado, este ano ele recebeu R$ 30 mil, somando também o patrocínio dos Correios (que inclui toda a equipe de desportos aquáticos) e seu salário no clube Pinheiro.

Com as duas medalhas olímpicas, sendo uma de ouro, avaliações de especialistas estimam que o retorno de mídia já supere os R$ 200 mil. “Realmente, ele nos surpreendeu. Na época que acertamos, não imaginávamos que ele já traria uma medalha nesta Olimpíada”, admite Werner. No ano passado, a Samsung montou um projeto chamado ‘Medalha Azul’, que reúne atletas de diversas modalidades e é renovável anualmente. No atual grupo estão também Giba, Daiane dos Santos, Robert Scheidt, Marta, a nadadora Flávia Delaroli, o maratonista Franck Caldeira, o nadador para-olímpico Clodoaldo Silva, além do ex-jogador de vôlei Maurício e de Priscila Xavier, revelação do caratê.

O perfil do “elenco” é montado cuidadosamente para minimzar perdas, causadas pelas oscilações comuns nas carreiras do atletas. Um recupera um possível mau investimento no outro. Enquanto algumas empresas preferem focar em um só atleta, outras optam por patrocinar toda uma modalidade ou até instituições. É o caso da Petrobras, que apóia a Confederação Brasileira de Handebol e o Comitê Olímpico Brasileiro. No ano olímpico foram investidos R$ 28,8 milhões, sendo R$ 26 milhões para o COB, beneficiando 28 modalidades com compra de equipamentos, contratação de técnicos e custeio de despesas com concentração e treinamento de atletas.

A Caixa Econômica Federal também investe pesado. Em 2001, o valor destinado à Confederação de Atletismo era de R$ 1,5 milhão. Agora, em 2008, as cifras atingem R$ 12 milhões. Para a ginástica, que começou a ser patrocinada pelo banco em 2006, serão destinados R$ 2.826.900,00. Mas, nesse caso, nem tudo são flores.

Jade Barbosa dispensou um contrato individual igual ao de Diego Hypólito de R$ 78 mil divididos em 12 parcelas. A ginasta pediu R$ 50 mil mensais e entrou em atrito com a patrocinadora. Em Pequim, a ginástica brasileira fracassou, mas ainda assim a Caixa avalia como positivo todo investimento.

“A Caixa avalia positivamente o apoio à ginástica artística”, declarou a patrocinadora, através da assessoria de imprensa. Ainda não está definido se o contrato será renovado, pois a confederação terá troca de comando na presidência. Antes da Olimpíada, o ministro do Esporte, Orlando Silva, chegou a apostar alto. “Temos investimento crescente na preparação dos atletas, qualificação da gestão das confederações, da mobilização de profissionais do mais alto nível. Ouviremos mais vezes o hino nacional e a nossa bandeira subindo em Pequim”, afirmou, à época o ministro. Isso, sim, não tem dinheiro que pague.

Dinheiro público para o esporte

Até o início da Olimpíada de Pequim, Jadel Gregório (foto) ganhava a maior bolsa do Programa Nacional da Caixa Econômica Federal de apoio a atletas de alto nível: R$ 3 mil/mês, valor que Maurren Maggi, que recebia R$ 2.500, passará a ganhar depois da medalha de ouro.

A Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos (ECT) é a patrocinadora dos desportos aquáticos brasileiros — natação, saltos ornamentais, nado sincornizado, poló aquático e maratonas de águas abertas. O valor anual do contrato firmado é de R$ 9,75 milhões.

A Caixa Econômica Federal ofereceu contrato de publicidade para Jade Barbosa (foto), de R$ 78 mil para ser pago em 12 parcelas mensais, mas a ginasta pediu um valor superior: 12 parcelas de R$ 50 mil cada. A Caixa negou, mas destaca que segue disposta a negociar.

A Lei Agnelo/Piva, que desde 2001 destina 2% da verba das loterias federais para as federações esportivas brasileiras, repassou ao Cômite Olímpico Brasileiro (COB), até hoje, R$ 459.156,582,28, sendo R$ 41.213,764,18 somente em 2008. O COB repassa parte do total para as confederações. O Ministério do Esporte também apresenta um relatório de transparência pública para detalhar os gastos com o esporte.

Direto para o Comitê Olímpico

De olho no retorno financeiro, as empresas preferem patrocinar os atletas e, por isso, muitas confederaões sofrem com o desinteresse e dependem das estatais. Entre os 277 atletas que participaram dos Jogos Olímpicos, 65% pertencem a confederações patrocinadas por estatais. Só o futebol, o tiro esportivo e o tênis de mesa contam com apoio privado. Nas modalidades de menos apelo na mídia, os atletas que não conseguem patrocínio recorrem ao governo. No boxe, esgrima e canoagem, entre outros, há exemplos de quem só possa competir graças ao Bolsa-Atleta, projeto do Governo Lula que destina até R$ 2.500 para quem não tem apoio externo.



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