08/08/2008 01:56:00

Zé Roberto: 'Vou chorar muito se a gente não ganhar'

José Roberto Guimarães admite que é obrigado a conviver com a fatídica derrota para a Rússia nas semifinais de 2004, mas reconhece que o grupo tinha que passar por aquilo para sair mais fortalecido

Danielle Rocha


Pequim - Nos últimos quatro anos, José Roberto Guimarães mudou muito. Aprendeu a ouvir mais, a conversar mais e a interagir com suas jogadoras. Aprendeu também a conviver com as críticas que vieram desde que a Seleção deixou escapar por entre os dedos a vaga na final olímpica de Atenas após estar vencendo o set por 24 a 19. Não gostaria de voltar àquele dia — que o fez até procurar um psicólogo — se pudesse.

Acredita que o grupo tinha de passar por aquilo para se fortalecer. E está certo de que agora o fim da história será diferente. Melhor ainda se for o mesmo que ele viveu com a Seleção masculina em Barcelona-92. O Brasil estréia a 1h30 (de Brasília) deste sábado contra a Argélia. “Aprendi que muita coisa na Olimpíada é por merecimento, trabalho, por estar focado. Parece que os deuses do Olimpo ficam muito atentos. Vai dar certo”.

— Que recordações guarda das outras três Olimpíadas?
— Em 76, fui como jogador e vi aqueles atletas famosos que só via pela TV. Almocei ao lado da Nadia Comaneci e achei o máximo. Foi um momento de êxtase. Em 92, já como treinador, éramos a quinta força. Não imaginávamos passar por adversários como nunca tínhamos feito antes. Houve uma harmonia, uma solidariedade jamais vista. A primeira coisa que fazíamos todo dia era dar um mergulho no mar. Em 2000, fui como comentarista e disse que queria ver o hipismo. Tirei foto ao lado de Baloubet du Rouet (cavalo de Rodrigo Pessoa) e não acreditei ao vê-lo refugar duas vezes. Em 2004, foi um momento que tentei arrebanhar o que havia de melhor para tentar ir bem nos Jogos. Cheguei após a turbulência com o Marco Aurélio Motta e as jogadoras. Fomos a Atenas e houve aquela situação fatídica.
 
— As críticas que vieram com derrotas semelhantes àquela contra Rússia incomodam você?

— No Brasil, a coisa é dessa forma. A Seleção se manteve muito bem durante esse ciclo, apesar de falarem que é um time que 'amarela'. Tudo serve para fortalecer. Entendo que o povo queria que ganhasse e ficou frustrado. Nós sentimos o mesmo. Algumas pessoas denigrem a imagem, mas muita gente torce. Temos é que continuar fazendo força e não baixar a cabeça. Vou chorar muito se a gente não ganhar. Mas vai dar certo, sim.

— Gostaria de voltar àquela semifinal de Atenas?
— Isso é difícil. Tinha que passar por aquilo. Acredito muito nessa coisa. Cada um tem um carma e pedras no caminho para que possa crescer. Não tenho rancor, mas sinto muita pena, gostaria que fosse bem diferente.

— Você é kardecista?
— Sim. Toda semana tomo passes, leio os livros e tenho rezado muito. Não sinto raiva nem mágoa. Sei que tudo é uma provação.

— Há um bom número de calouras nesta equipe. O que fez para ajudá-las a não perder o foco com as tentações da Vila?
— Levei o Tande a Saquarema para falar com elas, tentando prepará-las para tudo. Ouvi-lo sobre o que aconteceu antes e depois daquela medalha de ouro em Barcelona deu a noção exata de como é bom passar por isso tudo.

— É possível dormir bem numa Olimpíada?
— Durmo pouco, quatro horas no máximo. O descanso é igual a cavalo: meio que em pé. O chefe da manada fica atento a qualquer alarme. Já estou ligado muito antes da partida. Tento meditar, rezar e fico um pouco sozinho, também. Antes de viajar cuido do coração, jogo bola, tênis e monto cavalo. Na véspera da final de Barcelona, tive que ficar conversando com o Tande, que também não conseguia dormir de ansiedade, até dar sono.
— Luiz Felipe Scolari foi a um churrasco seu e depois você foi a uma palestra dele. O que aproveitou sobre o que ele falou?
— Muita coisa. De que é preciso ser simples, objetivo e sincero nas coisas que está fazendo. De que não se pode esquecer as raízes. Que tenta transformar o time num prologamento da família dele, na forma de tratar um jogador. Ele disse que torceria por nós.



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