Rio - O encantamento era generalizado. Os fashionistas mal puderam acreditar quando chegavam à Marina da Glória diante do novíssimo Fashion Rio. Uma verdadeira instalação de bom gosto, da iluminação indireta aos coqueiros e painéis reproduzindo os Arcos da Lapa. Será uma miragem ou é mesmo a Lua cheia que reina soberana sobre a Baía de Guanabara, para arrematar esse cenário arrebatador?
Ali estão 28 mil metros quadrados de tenda. Alguém viu? Alguém viu? Não, queridos, elas estão escondidas sob uma cenografia irrepreensível. Tampouco se ouve o bate-estaca daqueles lounges pavorosos que transformavam o evento em boate. Na trilha, só a marolinha da baía e o flip-flop das rasteirinhas, uniforme nº 1 das lulus que migraram para a Marina.
As áreas de convivência estão unidas sob o mesmo teto sobre piso de madeira. O lounge Nívea/Glamurama reproduz uma cabana balinesa; a pracinha virou point, e Eloysa Simão desencastelou-se de sua sala para receber todo mundo como se estivesse lá em casa, que luxo. Teve gente que se lembrou dos tempos gostosos do MAM; eu achei ainda melhor. Vamos aos desfiles?
SANTA MUDANÇA
A Sta. Ephigênia é a grife queridinha das socialites cariocas, graças, convenhamos, a sua eterna habilidade de recriar o passado de um Rio glamuroso.
Mas o desfile de domingo deixou claro que a coisa mudou de figura — e para melhor. Adeus aos frufrus, aos babados e às joaninhas do verão passado. Luciano Canale passou o aspirador de pó e mostrou que sua mulher finalmente chegou ao ano 2010: ela é prática, é soberana, é globalizada — sin perder el glamour...
O trabalho com formas e volumes é apuradíssimo, tanto nas golas gigantescas quanto nos ombros soltos e na silhueta Y. Y. de Yamamoto, Y de yummy-yummy. A referência étnica, numa estação que promete explorar até a última gota a África tribal é sutil, completamente distante do lugar-comum. Ela vem nas conchas, no tricô cru, nas cores neutras (beges, pretos e cinzas) que levam chuva à savana.
Esqueça onças, zebras, algodões coloridos. Adote imediatamente o vestido degradê que mancha de tinta branca uma peça negra e seca. O colorido desta coleção está na alma de quem a usa. E numa elegância eterna, adulta e, uau, de pernas de fora. Bem-vindo ao século 21.
“Como era de se esperar, a coleção me agradou em cheio. Com peças lindas e leves, que têm tudo a ver com o inverno brasileiro. Principalmente o carioca, que quase não existe", disse Bethy Largardère a O Dia
PARA TRÁS E AVANTE
Na contramão do movimento da Sta. Ephigênia, Walter Rodrigues quer voltar às origens, o que pode ser muito perigoso para um estilista que, a cada coleção, vem evoluindo de maneira segura e rentável. O flerte com o masculino/feminino não foi o ponto alto da apresentação; muitas vezes ficou com cara de antiquado, muito fechado para o calor tropical.
Acertado, sim, era o vestido Audrey de veludo negro, capaz de deixar madame irresistivel em suas festas noite adentro. Sem a renda dourada e as sandálias em flor que engolem os pés então, ficariam per-fei-tos.
Pétalas cortadas a laser? Segundas peles com tatuagens? Já vi, já vi. O tubinho em pailletes multicoloridas e a barra em plumas? Adoro, adoro. Mestre na arte do corte, Walter está dançando com novos tecidos high-tech em sua alfaiataria — e esse flerte promete.
“Foi legal?", quis saber Grazi Massafera quando viu sua empresária, Márcia Marbá, após desfilar à convite de Walter. “Estou nervosa sim", disse ela antes da apresentação. Na platéia, Glória Maria, Larissa Maciel, a Maysa da minissérie global, Mauro Mendonça e Rosamaria Murtinho a aplaudiram. “É ótimo ver um desfile onde as modelos sorriem na passarela", disse Rosamaria. E se ela falou, tá falado. Ao seu lado estava seu marido, o ator Mauro Mendonça. “Tive que chantageá-lo para me acompanhar até aqui. Ele veio em troca de um prato de rigatone ao sugo”, conta a atriz.
MARA
O desfile da Mara Mac foi... mara. A referência à China, não aquela caricata, mas à pujante, globalizada, veio em túnicas sujas de tinta preta, aliadas a seu estilo-fetiche: peças assimétricas, desconstruídas, nos mais variados tons de cinza, transpirando uma elegância sóbria e moderna. Na primeira fila, Renata Fraga, Leda Nagle, Leila Schuster, Glória Maria, Alexia Deschamps e, dando um show de supremo glamour, Gisella Amaral, em vestido azul marinho e pois brancos.
VAI NESSA DA MATA?
Sabe aquele momento em que tudo está preparado para dar certo e, por algum motivo estranho, a coisa desanda? Foi assim o desfile da Redley, na Floresta da Tijuca. O calor era tropical, o atraso passou de uma hora e os fiscais do Ibama ficaram no pé — com razão — para que o volume do som não atrapalhasse a Natureza. Quem dera fizessem o mesmo com a expansão das favelas, não é?
O clima tenso e os mosquitos, afastados por doses cavalares de repelentes, afetaram o humor dos fashionistas, meio sonolentos com o desfile da patchworks, referências militares, tons terrosos e cinzas, calça com bainha de pescador. Fora o look escoteiro, os tricôs são belos, assim como um vestidinho de estampa meio camuflagem, meio impressionista.
BAFO
Se nas três entradas que fez pela TNG Cauã Reymond foi ovacionado e jogou beijinhos para a platéia, na coletiva, antes do desfile, o ator não estava com muito saco para fotos e perguntas. Quando um repórter quis saber onde ele iria passar as férias com Grazi, em tom de deboche o galã respondeu: “Nova Zelândia”.