SANTIAGO - O ex-ditador Augusto Pinochet foi internado na madrugada de domingo após enfartar na mansão onde cumpre prisão domiciliar na capital chilena. Pela manhã, o general, 91 anos, passou por uma angioplastia — procedimento invasivo feito para diagnosticar e retirar placas de gordura na artéria coronária e garantir o fluxo sanguíneo. Após a operação, o ex-ditador recebeu a extrema-unção, sacramento da Igreja Católica reservado para fiéis que estão perto da morte. Além do padre-capelão do Hospital Militar de Santiago, estavam presentes à cerimônia a mulher Lucía Hiriart, e seus cinco filhos, Augusto, Lucía, Jacqueline, Verónica e Marco Antonio.
“Pinochet se encontra em estado grave e enfrenta condição de risco de vida”, disse um dos médicos que atende o ex-ditador, pouco antes de ele passar por novos exames. Só no fim do dia se confirmou que, por enquanto, não será necessário implantar marca-passo para controlar os debilitados batimentos cardíacos do general.
Segundo o porta-voz da família, o general reformado Guillermo Garín, Pinochet sempre esteve consciente e respirando sozinho. “Estamos nas mãos de Deus e dos médicos”, disse Marco Antonio, filho caçula de Pinochet. “A saúde do meu pai está grave”, admitiu sua filha mais velha, Lucía.
Pinochet continua hospitalizado em estado grave, mas estável, nesta segunda-feira. Um dos médicos disse que o ex-ditador ficará internado e em observação por pelo menos mais 10 dias.
Tão logo ficaram sabendo da internação, simpatizantes do ex-ditador se amontoaram em frente ao hospital, levando fotografias dos tempos em que o general comandava o Chile com mãos de ferro, além de cartazes, camisas e botons com frases de apoio a Pinochet. Muitas mulheres choravam ao ouvir pelo rádio as declarações dos filhos do ex-ditador e os relatos sobre o estado de saúde dele. O general reformado Luis Cortés Villa, diretor da Fundação Augusto Pinochet, que reúne partidários do ex-ditador, repetiu durante toda a tarde que o “risco de morte já passou”.
O momento é, porém, o mais delicado desde junho de 2005, quando Pinochet também foi hospitalizado com uma isquemia e um edema pulmonar.
Na semana passada, ao completar 91 anos, Pinochet entregou mensagem a seus partidários e ao país, na qual assumiu, pela primeira vez, sua inteira “responsabilidade política” pelos crimes atribuídos à sua ditadura de quase 17 anos. “Hoje, perto do fim dos meus dias, quero manifestar que não guardo rancor de ninguém, que amo minha pátria acima de tudo e que assumo a responsabilidade política de tudo o que foi feito”, destacou o ex-ditador na ocasião.
Governo evita falar de funeral
“Acho que é de mau gosto falar de funerais quando as pessoas estão vivas”, disse, no Palácio de La Moneda, o ministro porta-voz do governo chileno, Ricardo Lagos Weber, ao responder a uma pergunta de jornalistas. “Estamos atentos aos boletins médicos. A presidente Michelle Bachelet está informada”, disse o ministro, descartando que eventual morte de Pinochet seja uma complicação para La Moneda.
Quando era candidata à presidência do Chile, no ano passado, Bachelet descartou um funeral de estado para o ex-ditador. Após ter assumido a chefia do governo, em março, ela assinalou, porém, que diante de uma eventualidade como essa, existem normas de protocolo que devem ser cumpridas. Já o Exército também informou que, caso Pinochet morra, existe procedimento que se aplica a ex-comandantes do país.
3 MIL MORTOS E 28 MIL TORTURADOS
Sob o governo de Pinochet, houve 3 mil mortos e desaparecidos e 28 mil pessoas foram torturadas, incluindo a atual presidente chilena, Michelle Bachelet.
Nos últimos anos, Pinochet perdeu toda a relevância política e aparece só nas investigações sobre sua responsabilidade em delitos econômicos e violações de direitos humanos.
O ex-ditador foi, de 1973 a 1990, o homem mais temido do Chile. Ficou conhecido como o militar que aniquilou o governo de esquerda de Salvador Allende e bloqueou a via chilena para o socialismo.
Sua polícia política, Dina, contribuiu para o fortalecimento do poder pessoal dele, sendo acusada pelas mortes e torturas de adversários do regime.
Em 1998, o juiz espanhol Baltazar Garzon, que recebeu as denúncias das vítimas da repressão na Argentina e no Chile, mandou prender ex-ditador. Desde então, Pinochet alega problemas de saúde para escapar da cadeia e adiar o julgamento final.
Em 2004, a filha de Salvador Allende, Isabel, disse achar provável que Pinochet morresse antes de ser condenado.