Designer, empresário e colaborador do Instituto Millenium
Rio - O que leva um vocábulo recém-inventado, uma alteração na regra gramatical, e até um estrangeirismo, a ganhar direito de cidade? Não tenho como enumerar todos os pré-requisitos, mas a relevância nos costumes da nação falante sempre será condição obrigatória. O assentamento de uma língua passa pelo povo que a cultiva, pelos filólogos, lexicógrafos e apaixonados que a estudam, pelos que refinam sua forma na escrita corrente, pelos leitores, oradores e ouvintes, pela história por trás dela. Foi nesse processo que a grafia de Brasil passou do "z" ao "s".
Infelizmente, para cada regra espontânea da vida, que demoramos gerações para entender e usufruir, algum Dr. Frankenstein tentará invertê-la. O atual governo vem anunciando a unificação do nosso idioma. Ao invés de talhada pelo uso, querem-nos decidir a ortografia por meio de reuniões ministeriais. Ratificou-se: cai o trema, o circunflexo em paroxítonas terminadas em "o", como também na terceira pessoa do plural do verbo "crer" e outros. Crêem nisso? Tão pretensioso e triste alvará da língua.
As mais belas gramáticas, como as de Celso Cunha, Evanildo Bechara e outros, são verdadeiras Constituições consuetudinárias de uma língua anárquica. Esses preciosos manuais, uns contrariando preceitos e conclusões de outros, não têm nada da uniformização grosseira planejada por uns quantos ministros e políticos.
"Instâncias superiores" querem impor regras de uma língua que inexiste aqui, sem base civilizacional própria. Não se legitima pelas relações entre as pessoas que a utilizam realmente. E no lugar das jóias orais de um povo, da referência do que escrevemos de melhor, guiaremo-nos pelos sonhos de homogeneização dos burocratas.
