Diretor de teatro e cineasta
Rio - Eu lhe escrevo e talvez você nunca me leia. Rogo para que esqueça tudo, mas, se não for possível, que a bênção cubra sua vida e lhe dê a graça do perdão. “Perdoai-os, pai, pois eles não sabem o que fazem”. O que fizeram com você e com aqueles que lhe amam e lhe cuidam foi dupla demonstração de monstruosidade e impiedade. Despossuído de encantamento de humanidade, aquele que deveria velar por sua inocência, seu padrasto, revelou-se sórdido, covarde e mal, como só pode o homem.
Apartado da caridade cristã, quem deveria ampará-la — o bispo — com a palavra de um Deus que se fez menino e piedoso, se revelou frio e insensível. Esqueceu as palavras de Paulo, aquele que abriu a igreja a todos que tiverem fé: “Que afinidade pode haver entre a justiça e a impiedade? Que comunhão pode haver entre a luz e as trevas? Nós é que somos o templo do Deus vivo.”
Sim, seu corpo de menina é o templo de Deus. E fizeram bem os que zelaram por sua vida, que estava em risco. Manter sua vida foi sustentar a graça do seu nascimento, zelar pelo Evangelho de Marcos, que nos revelou as palavras Dele, quando os apóstolos impediam as crianças de se aproximar: “Deixai as crianças virem a mim. Não as impeçais, pois delas é o Reino de Deus”.
Eu não tenho, infelizmente, a graça da fé, não sou uma ovelha do rebanho, mas a excomunhão daqueles que a ampararam fez nascer em mim a vontade de dizer alto: Não, isso não é cristão; não, dom José Sobrinho, suas palavras não ecoam a bondade, a misericórdia e a solidariedade.
Em vez de agregar, elas nos afastam da cristandade. Já não bastam as fogueiras, a Inquisição, a intolerância com os homossexuais? O peso das catedrais e de suas vestes não lhe tiram a condição de homem. E o senhor se mostrou miseravelmente precário. Que a imensa bondade de Deus o proteja de si.
