Rio - Os atletas de Cuba estão subvertendo a tradição socialista do país comandado por Fidel Castro. Em terras brasileiras, os cubanos transformam os uniformes de descanso em dólares. Voluntários e funcionários da Vila Pan-Americana estão fazendo a festa com o impulso capitalista dos atletas. Por US$ 150 (cerca de R$ 300), em média, podem se vestir oficialmente como campeões do Pan com a calça e o casaco dos atletas.
Considerados um dos mais bonitos das delegações que ocupam a vila, os agasalhos dos cubanos podem ganhar agora a fama de mais sujinhos. É que os atletas ganham da fabricante Adidas três conjuntos de calça e agasalho para revezar as peças na lavanderia. Como estão vendendo dois, só têm o do corpo para circular quando estão fora das competições. Um atleta que pediu para não ser identificado conta que, dependendo do freguês, o preço pode subir. “Tem gente que consegue US$ 200 pelo conjunto”, diz.
O desportista revela que o escambo representa mais que uns trocados. Segundo o cubano, US$ 400 para um atleta do país é bastante dinheiro. O salário mínimo de Cuba é de 225 pesos, o equivalente a US$ 100.
Os atletas contam que o país fornece moradia, educação, alimentação e uma bolsa para custear despesas para cada desportista. Ele afirma que dá para viver, mas o gasto com pequenos luxos, como lembranças do Brasil, será bancado por lucros conquistados graças à venda dos agasalhos.
O comércio Brasil-Cuba da Vila foi mais longe. Alguns atletas trouxeram nas malas até 15 caixas de charuto cubano. Para os tabagistas, o Pan foi vantagem. Uma caixa de charuto que custa cerca de R$ 400 é vendida pela metade na Vila.
Fidel critica o Brasil por possível asilo
O governo brasileiro decidiu silenciar-se sobre o novo ataque do presidente de Cuba, Fidel Castro, em relação ao posicionamento das autoridades sobre os possíveis pedidos de asilo político dos quatro cubanos que desertaram durante o Pan.
As solicitações dos atletas que deixaram a Vila do Pan — um jogador de handebol, dois boxeadores e um técnico de ginástica —, caso apresentadas, serão encaminhadas ao órgão de regularização de estrangeiros, do Ministério da Justiça.
Na edição de terça-feira do jornal ‘Granma’, os atletas foram chamados de “traidores”. Fidel acusou os Estados Unidos de estar por trás das fugas, porque Cuba prega o amadorismo no esporte. A mensagem de Fidel foi um aviso velado ao Brasil. Ele espera que o País não acolha os atletas.
As críticas do líder cubano contra o Brasil não foram as primeiras deste ano. Às vésperas da visita do presidente dos Estados Unidos, George W. Bush, ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em março, Fidel atacou a parceria do Brasil com os americanos para a produção e a comercialização de biocombustíveis.
Essa cooperação, segundo Fidel Castro, condenaria “à morte prematura mais de 3 bilhões de pessoas no mundo”. Na ocasião, o Itamaraty reagiu. O ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, declarou que as reflexões do presidente de Cuba eram “antigas” e que podiam ser desmentidas pelo “sucesso do etanol”. Desta vez, as autoridades brasileiras avaliaram que não valia a pena responder Fidel.