Rio - O carioca anda pelas ruas e vê uma viatura tinindo de nova a cada esquina. Vai aos estádios torcer pelo Brasil no Pan e vê o país quebrar seu recorde de medalhas de ouro. Informa-se pela TV sobre parcerias que garantem investimentos bilionários em infra-estrutura e transporte. Abre o jornal e se ufana ao ver que um time do Rio está na liderança do Campeonato Brasileiro.
Nos últimos meses, e, em particular, durante os Jogos Pan-Americanos, o Rio viveu dias que fizeram lembrar os dourados anos 1950. O Pan, a eleição do Cristo, o Live Earth e a queda nos índices de criminalidade renovaram as esperanças do carioca, que agora sonha em pegar emprestado o brilho das 161 medalhas conquistadas pelo Brasil (só Thiago Pereira, na foto, conquistou 8) e, após décadas perdidas, entrar em uma nova era de paz e prosperidade.
O prefeito Cesar Maia é um dos que acreditam que o momento de euforia pode se prolongar numa fase de otimismo e esperança como a "Era JK": "O Rio está equipado e preparado para isso", diz. Mesmo após os atritos com o presidente Lula, o prefeito confia na continuidade da sinergia dos governos estadual, municipal e federal, que marcou a realização do Pan: "A colaboração administrativa nada tem a ver com a oposição politica".
Anos 50 x Anos 00
A década de 1950 no Brasil entrou para a história como um período de otimismo e esperança lastreados por um forte crescimento econômico e uma marcante efervescência cultural. No Rio, os sonhos fluiam na cadência da Bossa Nova, mas também havia espaço para o engajamento do Teatro de Arena e as denúncias sociais dos filmes de Nelson Pereira dos Santos, o precursor do Cinema Novo.
Por coincidência, tanto a época áurea do Rio como o atual sopro de esperança começaram com baixo astral e luto. Nos anos 1950, foi a derrota para o Uruguai no Maracanã, na final da Copa do Mundo, que calou a voz do carioca. No final de 2006, foram os ataques terroristas do crime organizado que impuseram minutos de silêncio compungido.
Mas se o Brasil deu a volta por cima na Copa de 1958, conquistando o caneco na Copa da Suécia, agora parece haver motivos para otimismo em relação à Segurança, o maior flagelo do carioca. Só durante os preparativos para os Jogos, em maio e junho, o número de homicídios na cidade caiu 40% em relação ao mesmo período de 2006, segundo a Secretaria Estadual de Segurança. Já o número de roubos e furtos também caiu em cerca de 20% em junho.
Os números resultam de um esquema de segurança que mobilizou 13.024 policiais, 14 helicópteros, três mil agentes da Polícia Federal, três mil homens da Polícia Rodoviária Federal e seis mil soldados da Força Nacional de Segurança. "O que estamos tratando no Rio é um novo paradigma de segurança pública tudo que acontece vai refletir no prestígio do nosso país no mundo", disse o ministro da Justiça, Tarso Genro, antes dos Jogos.
Para os Jogos, o Ministério da Justiça adquiriu ainda 1.768 viaturas, das quais 75% - cerca de 600 - serão doadas ao Rio. O governo do estado ainda negocia a permanência da Força Nacional.
Os empregos também estão em alta. De acordo com a Pesquisa Mensal de Emprego do IBGE, o contingente de pessoas ocupadas na região metropolitana do Rio cresceu 2,5% em junho deste ano na comparação com o mesmo mês de 2006. Outro quinhão significativo de postos de trabalho deve surgir a reboque dos investimentos de R$ 3,2 bilhões do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) em 15 municípios do Rio.
O pacote faz lembrar o "Plano de Metas", elaborado pouco antes da posse do presidente Juscelino Kubitschek (foto), em 1956, como uma forma de eliminar os "pontos de estrangulamento" da economia brasileira. O vice-governador e secretário de Obras Luiz Fernando Pezão acredita que, entre os projetos nas comunidades do Alemão, Cantagalo / Pavão-Pavãozinho, Manguinhos e Rocinha e as obras de saneamento da Baixada Fluminense, sejam criados cerca de 26 a 30 mil empregos diretos.
"Uma grande conquista será a utilização de mão-de-obra das comunidades para essas obras. São áreas onde faltam não apenas pavimentação em ruas e um plano urbanístico, mas também coleta de esgoto, distribuição de água", diz.
O Pan e a eleição do Cristo Redentor como Nova Maravilha do Mundo também devem ajudar a dinamizar a economia do Rio. Para a ministra do Turismo Marta Suplicy, a escolha do Cristo Redentor vai garantir ao país um novo patamar turístico, gerando somente no Rio cerca de 250 mil novos postos de trabalho.
O secretário estadual de Turismo, Eduardo Paes, deposita suas esperanças no legado dos Jogos Pan-Americanos. "O Rio de Janeiro teve uma extraordinária exposição espontânea na mídia internacional. Foi uma promoção fantástica para a cidade. Isto, inegavelmente, se refletirá num aumento de fluxo turístico", assinala.
Durante os Jogos, a taxa média de ocupação dos hotéis do Rio chegou a 85%, atingindo 95% na Barra da Tijuca, superando as marcas registradas no réveillon e no período do carnaval.
O carioca vibrou no Pan, mas torce para que o fôlego para resgatar o Rio não tenha acabado no domingo. Quer ver concretizados os projetos para a cidade que incluem a Cidade da Música e trem-bala para São Paulo funcionando a pleno vapor. E quer ver seu sonho ser coroado, de preferência, com a escolha da cidade para sediar as Olimpíadas de 2016.