29/10/2008 01:21:00

A caixa preta das contas de Cesar Maia

Equipe de transição de Paes tenta obter informações sobre finanças, enquanto Cesar busca reforçar o Tesouro

Michel Alecrim


Rio - O principal desafio da equipe de transição do prefeito eleito Eduardo Paes será diagnosticar as condições reais da saúde financeira da prefeitura, para saber qual é a disponibilidade de caixa que terá no início do mandato. Atos do prefeito Cesar Maia para antecipar receitas aumentam a expectativa em relação às contas. Depois de ter tentado sem sucesso captar recursos no mercado usando a dívida ativa como garantia, ele recorreu ao Instituto de Previdência do Município para que compre títulos públicos em posse da prefeitura.

No início do ano, Cesar buscava no mercado financeiro cerca de R$ 420 milhões. A operação seria realizada pelo Deutsche Bank (Banco Alemão), que faria a securitização da dívida ativa municipal. O contrato foi suspenso em julho por falta de interessados.

Depois tentou repassar para o PreviRio títulos públicos com vencimento em 2021. A ex-presidente do instituto, Dalila de Brito Ferreira, considerou a operação inadequada e acabou exonerada do cargo. “O corpo técnico não recomendou a operação pelo prazo do vencimento. Nossa matriz de investimentos nos parece adequado ao cronograma de pagamentos”, explicou Dalila.

O prefeito nega que a demissão tenha sido motivada pela recusa e afirma que a ex-presidente não tinha condições de participar do grupo que iria discutir os efeitos da a crise financeira mundial. “Por essa não ser uma especialista na área, não tinha como entender os problemas. Como eu não podia dividir a presidência em duas, a substituí”, alegou Cesar.

Na opinião da vereadora Andrea Gouvêa Vieira (PSDB), da Comissão de Finanças da Câmara, as contas da prefeitura são uma “caixa preta”. Não haveria clareza em relação ao que é gasto diretamente com recursos próprios do Município, a chamada Fonte 100. “Não conseguimos descobrir quais são os compromissos do Tesouro. Se houver compromissos sem cobertura, ele pode ser punido pela Lei de Responsabilidade Fiscal e se tornar inelegível”, afirma a vereadora.

O próprio Eduardo Paes chegou a estipular durante a campanha que a prefeitura teria uma insuficiência de R$ 300 milhões. O endividamento da prefeitura, que superou os R$ 8 bilhões, também vem pressionando as contas. Dívida não reconhecida de cerca de R$ 600 milhões com o Funprevi também podem complicar a vida do futuro prefeito. Já há efeitos também da crise financeira na arrecadação de impostos municipais.

Aperto de mão dos desafetos

O prefeito Cesar Maia se encontrou ontem pela primeira vez com o seu sucessor, o prefeito eleito Eduardo Paes. O encontro durou apenas 30 minutos, no Palácio da Cidade, em Botafogo, e serviu para preparar a transição no Município, além de discutir alguns projetos de interesse comum na Câmara dos Vereadores. Na saída, ao falar com jornalistas, Paes se referiu a Cesar Maia como “ex-prefeito” do Rio.

O encontro poderia ter orgulhado o atual prefeito, ex-guru de Paes e que o orientou nos primeiros passos na política. A relação entre os dois se deteriorou quando Paes passou a seguir carreira solo, trocar de partidos e criticar a atual gestão municipal. Paes, porém, negou que tenha ocorrido constrangimento na reunião. “Foi um ótimo encontro. Tratamos de estabelecer parâmetros claros para a transição, que será absolutamente civilizada”, observou o prefeito eleito. Os dois apertaram as mãos e sorriram para as câmeras — nada mais.

Eduardo Paes negou que tivesse pedido desculpas a Maia devido às duras críticas no decorrer da campanha. “De maneira nenhuma. Foi um encontro absolutamente cordial. Temos uma relação civilizada, sem a menor dificuldade. Em nenhum momento foi feita crítica pessoal da minha parte”, destacou Paes.

Cesar Maia só deixará o governo no primeiro dia do ano que vem. Mesmo assim, Paes se confundiu e se referiu a Cesar como não fosse mais ocupante do cargo máximo do Município. “Eu sou o prefeito eleito, e ele é o ex-prefeito”, disse, ao comentar a relação entre os dois.

Cesar confirmou que o encontro fora apenas uma apresentação das equipes de transição. Paes deixou o gabinete dando um ‘tchau’ de longe para Cesar.

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