
Rio - Quem vencer a eleição no Rio vai realmente ter de agradecer a Deus. Se for mantida a tendência apontada pelas pesquisas de intenção de votos, com Marcelo Crivella e Eduardo Paes no segundo turno, a religião dividirá a cidade. Para o professor Cesar Romero Jacob, da PUC, os dois deverão repetir o duelo entre evangélicos e católicos na disputa de 2004 entre Cesar Maia e o mesmo Crivella. “Os evangélicos votaram no irmão e os católicos fizeram voto útil por Cesar Maia”, observa.
Romero acaba de publicar pela revista acadêmica Alceu, da PUC-RJ, artigo sobre as eleições para prefeito em 2004 e presidente em 2006 no Rio e em São Paulo. O trabalho é assinado ainda pelos professores Dora Rodrigues Hees, Philippe Warniez e Violette Brustlein. “Mostramos que em 2004 a eleição paulistana foi dividida pela política e a carioca, pela religião”, observa.
O estudo compara os mapas de votos de Crivella em 2004, quando perdeu para Cesar, com o da distribuição de evangélicos na cidade. Constatou que Crivella obteve melhores percentuais de votos nas áreas com maiores concentrações de evangélicos, como na Zona Oeste (fora Barra e Jacarepaguá).
Com Cesar, os melhores índices de votação ocorreram em áreas de predominância católica mais elevada, como Zona Sul, Centro e Zona Norte. “O que se viu é que o mapa do Crivella dos votos é idêntico ao mapa da distribuição dos evangélicos no Rio”, sintetiza Romero.
Paes segue os passos do atual prefeito. À época, Cesar iniciou a campanha subindo as escadarias da Igreja da Penha, com ampla cobertura da mídia. “Sinalizava aos católicos: sou o candidato de vocês”, observa o autor do estudo. Paes já participou de romaria a Aparecida e recebeu sábado bênção de Dom Eusébio Oscar Scheid, a pedido do Papa Bento XVI.
Se for mantida a tendência de 2004, os católicos poderiam se unir pelo voto útil em torno do candidato mais bem posicionado. No momento, as pesquisas apontam Paes. Os outros candidatos católicos são Solange Amaral, Alessandro Molon (PT) e Chico Alencar (PSOL).
Romero alerta, porém, que não se pode simplificar o processo eleitoral. “Religião pode ser fator determinante, mas não o único”, ressalta, ao destacar componentes como discurso, apoio da máquina, tempo de TV e recursos.
CRIVELLA TENTA REPETIR ESTRATÉGIA DE LULA
Cesar Romero Jacob observa que Crivella tenta reverter a imagem de que representa um segmento religioso. Ao afirmar que governará para todas as religiões, segue a receita do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Para vencer em 2002, teve de mudar a imagem de sindicalista que lutava pela sua categoria para a de quem governaria para todos.
A mudança de Lula, que incluiu até visual mais arrumado, ficou nas mãos do publicitário Duda Mendonça, o mesmo marqueteiro contratado por Crivella. O calcanhar-de-aquiles de Crivella, na opinião de Romero, é o fato de fazer parte de uma igreja com fiéis muitas vezes avessos à relação com outros credos. Destaca que um candidato de denominações como a luterana e a presbiteriana — favoráveis ao ecumenismo — não estimularia a rivalidade.
Para o professor, naturalmente se cria rejeição do católico ao bispo licenciado da Universal. “O problema de Crivella é convencer o eleitorado de que vai governar para todos”, opina. Para Romero, o quadro muda se Jandira Feghali (PCdoB) ou Solange Amaral (DEM) disputarem o segundo turno com Paes. Não haveria o confronto religioso. Pelo censo de 2000, o Município do Rio tem 61% de católicos, 17% de evangélicos e 13% de sem-credo.
O trabalho ainda exemplifica ainda a dificuldade de Crivella em áreas de maior poder aquisitivo e de escolaridade mais alta, como Centro, Tijuca, Zona Sul e Barra, onde obteve percentuais de votação mais baixa nas eleições de 2004.
Candidatos ainda usam verba de gabinete
Mesmo em campanha pela Prefeitura do Rio, parlamentares cariocas vêm mantendo os gastos com as chamadas verbas indenizatórias. Em agosto, o “prefeitável” que mais usou esse tipo de despesa do Congresso Nacional foi o deputado Filipe Pereira (PSC), que gastou R$ 11.663,65. O senador Marcelo Crivella (PRB) ficou em segundo, com R$ 11.111,84.
No mês passado, os demais parlamentares candidatos também fizeram uso da verba. Fernando Gabeira (PV) gastou R$ 11.069,30. Chico Alencar (PSOL) pediu ressarcimento por despesas de R$ 9.230,33. Solange Amaral foi a que menos fez uso da verba, tendo requerido R$ 2.390,72.
A verba indenizatória, no valor de até R$ 15 mil para cada parlamentar, serve para cobrir despesas com aluguéis de imóveis, consultorias, alimentação, transportes e divulgação.
A principal despesa de Filipe Pereira em agosto foi com “locomoção, hospedagem e alimentação”, que ficou em R$ 5.950. Com combustíveis, foram R$ 4.288. Mais da metade da verba usada por Marcello Crivella foi com a rubrica locomoção e despesas afins, que ficou em R$ 7.632,82. Com aluguel, ele usou R$ 3.479,02 da verba indenizatória.
Filipe Pereira afirmou que as despesas são referentes exclusivamente a sua atividade parlamentar, que continuaria normal. “Nada foi usado em campanha”, garantiu. Marcelo Crivella afirmou, através de sua assessoria, que também usou a verba do trabalho como parlamentar e que continua indo a Brasília, mesmo estando em campanha no Rio.
Os demais candidatos não foram localizados para comentar o uso da verba.
Saúde para a Zona Oeste
Durante carreata ontem em Realengo, na Zona Oeste, a candidata do PCdoB à Prefeitura do Rio, Jandira Feghali, prometeu abrir um posto de saúde na comunidade do Barata. Afirmou também que vai fazer o Programa Saúde da Família funcionar nas áreas carentes. Com relação ao saneamento da região, Jandira Feghali disse que vai cobrar do estado mais investimentos e, com isso, evitar epidemias.
Molon: postos até as 22h
Candidato do PT à Prefeitura do Rio, Alessando Molon declarou ontem, em visita à Escola Politécnica de Saúde Joaquim Venâncio, da Fiocruz, que, se eleito, os postos de saúde do município vão abrir até as 22h. Os funcionários serão divididos em três turnos. Também anunciou a extensão do passe livre aos estudantes da rede municipal nos fins de semana, para que possam ter acesso à cultura e ao lazer.
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