Rio -Dizem que nós só conhecemos uma pessoa depois que nos casamos com ela. Mas não seria ótimo poder saber — ou tentar descobrir — o que se passa na alma de alguém antes do vigoroso ‘sim’, evitando ao máximo mais uma desilusão? Ainda mais quando estaremos ligados por longos quatro anos, que podem fazer toda a diferença na vida do nosso Rio, cidade maravilhosa, mas angustiada. Na última semana, entrevistei os seis candidatos mais bem colocados nas pesquisas de opinião. Em pauta, nada de UPAs, PACs, IPTUs, DLs; apenas o que eles sentem, o que os magoa, o que os emociona. Crivella, confesso, me deu medo. Marcou no seu escritório num conjunto de prédios de luxo na Barra — às oito e meia da noite de domingo. Preciso dizer que não havia nem um segurança para levantar a cancela? Eu me senti naqueles filmes de suspense, com um monstro escondido atrás da moita pronto para atacar. Um grito e o vigia apareceu, ufa. Mas o monstro, na verdade, era eu, que não o poupei de nenhuma saia justa — e ele respondeu a todas.
—Qual o momento mais difícil da campanha?
—Agora. Está sendo uma campanha dificílima, porque uma luta eleitoral contra a máquina é sempre complicada. O partido do governador com um candidato, o do prefeito com um candidato, os outros com mais tempo eleitoral que nós. A luta é ter-rí-vel. E eu peguei uma afta no lado direito da minha língua. Um martírio.
—Vou dizer os nomes dos outros entrevistados e gostaria de que você fizesse um pequeno comentário a respeito. Jandira.
—Uma mulher admirável, às vezes um pouco radical.
— Paes.
— Muito jovem.
— Gabeira.
— Um homem honesto. Na mesma proporção que eu admiro sua honestidade, discordo de suas posições políticas.
— Molon.
— Mais jovem ainda.
— Solange.
— Carrega uma cruz pesada.
— Qual o livro da sua vida?
—Bíblia.
— Não vale. Pagão?
— Eu adorei o livro ‘O amor no tempo do cólera’, de Gabriel García Marquez.
—E o filme da sua vida?
—‘E o Vento Levou’. Aquela saga da Guerra de Secessão americana mostra uma crise que é um pouco a crise do Rio de Janeiro. A crise aqui é maior que a crise das cidades da África.
—Qual a coisa mais difícil que você viu na África?
—Na época do apartheid, tive contato com uma das piores facetas da alma humana, que é a discriminação descarada, aberta.
—Você chora com facilidade?
—Choro muito. Nessas caminhadas minhas nas favelas, às vezes eu me escondo para que não percebam meus olhos cheios de lágrimas.
—Você é o candidato bispo?
—Não. Quando as pessoas querem desqualificar, estereotipam. Eu não fui senador evangélico.
—A Igreja Universal vai mandar na Prefeitura do Rio?
—Não.
—Nenhuma relação?
—A Igreja não tem o menor interesse em mandar, até porque a política é eminentemente feita de uma maneira laica.
—Como prefeito, você dançaria com uma passista no Carnaval?
—Não, porque eu não sou do samba. É a mesma coisa que você perguntar: ‘Você acha a torcida do Flamengo bonita?’. Eu acho. Mas eu vou para o meio da torcida do Flamengo? Não.
—Você tem alguma mania desconhecida?
—A primeira coisa que eu faço ao chegar em casa é abrir a geladeira. Acho que é meu instinto de macho.
—De ver se está faltando alguma coisa?
—Exatamente. Quando o homem casa, vira homem da caverna.
—E por falar nisso, você é o candidato anti-gay?
—Não é verdade. Eu acho que a gente sempre estereotipa quem não conhece. No Senado, eu trabalho há seis anos com homossexuais, homens e mulheres, e jamais discriminei. Eu não divirjo apenas por razões bíblicas. É porque eu acho que é um caminho de amargura.
—Mas existem heterossexuais amargos...
—Também, mas não num nível tão grande.
—Como um gay vai poder votar em alguém que diz isso?
—Pela política pública. Eu quero proteger ele da discriminação, quero que ele tenha saúde excelente, eu vou lutar pelo emprego dele, eu vou lutar pela educação dele, eu nunca vou roubar o imposto dele.
—Um exemplo: pedem para fazer um evento de candomblé na Praça Onze. Você daria autorização?
—Para o candomblé, para os homossexuais, para os umbandistas, Parada Gay na Avenida Atlântica...
—A Parada vai continuar na sua gestão?
—Pelo contrário: terá limpeza, Guarda Municipal, iluminação.
—Você já sofreu alguma violência?
—A pior delas: minha filhinha, na minha campanha para o Senado, foi seqüestrada aqui, na Sernambetiba. Passou três horas dentro do carro. Seqüestro-relâmpago.
—Você tem medo?
—Não.
—Nem como pessoa física?
—Eu não tenho carro blindado, não tenho segurança, entro e saio de todas as comunidades e digo e repito para eles: eu tenho ódio e nojo da cocaína. Ódio e nojo das milícias.
—Você já fez exorcismo?
—Na África, o tempo todo. A Igreja cresceu muito na África exatamente por causa disso. Muitas pessoas envolvidas com espíritos.
—Qual a primeira coisa que você vai fazer depois da campanha, em nome da saúde mental?
—Vou me reunir com todos os meus colaboradores, amigos e familiares e agradecer, brincar, cantar.
—Qual será seu primeiro decreto no dia 2?
—Mandar para a Câmara a lei do Corredor Turístico, da Zona Franca Social, do Cimento Social e um projeto para tirar crianças da rua.
—Já pensou em fazer plástica?
—Já, porque muitas pessoas se viram para mim e dizem: ‘Poxa, Crivella, você está tão cansado, tão abatido, um olhar tão cansado, tão magro, tão acabado’. Dizem com tanta constância que eu acabo acreditando.
—Qual o seu programa povão?
—Piquenique no Alto da Boa Vista.
—E o high society?
—Quando estou numa daquelas recepções a que senadores são convidados. É o meu momento high society. Mas bem carnavalesco.
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