07/10/2008 01:36:00

Fôlego para a reta final

Eduardo Paes negocia alianças com PT e tenta atrair Lula. Acordo nacional entre PSDB e DEM favorece Gabeira, que tentará conquistar votos na Zona Oeste, onde ficou em terceiro lugar

Fotos: Fábio Gonçalves e Severino Silva / Agência O DIA

Rio - Pelo menos na disputa por apoios partidários, o candidato do PMDB, Eduardo Paes, está levando vantagem sobre o adversário, Fernando Gabeira, do PV. Em jogo, já está o ‘xadrez’ das eleições presidenciais de 2010, o que tende a atrair para o peemedebista aliados do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O ‘verde’ espera, então, concentrar apoio dos partidos de oposição.

Apesar de Gabeira negar que seja o candidato anti-Lula e se dizer contra a nacionalização da campanha do Rio, esse foi o tom dado pelo presidente nacional do DEM, deputado Rodrigo Maia, que reuniu integrantes do partido ontem à noite no Palácio da Cidade, sob a batuta do prefeito Cesar Maia. Segundo ele, os democratas decidiram se aliar aos tucanos, que já estavam com Gabeira no primeiro turno em todo o País. “Isso fortalece nosso projeto para 2010”, explicou Rodrigo.

A nota oficial dos democratas — bem como a orientação nacional do partido — recomenda o voto em Gabeira, mas a participação do prefeito e de outros líderes do partido vai depender da vontade do candidato. Apesar de Rodrigo ter dito que todos os participantes concordaram com a decisão, o partido está dividido.

“Eu tenho fidelidade”, disse o vereador Aloísio Freitas, que teve o mandato renovado e deve respeitar a orientação. “Não tenho nada a perder. Na minha área ninguém ouviu falar em Gabeira”, declarou Jorge Mauro, que não alcançou o quociente eleitoral, e, sem mandato, não fica sujeito a punições mais severas por infidelidade.

Nos partidos esquerda, a lógica também tem sido da aliança nacional. O presidente do Diretório Municipal do PT, Alberes Lima, já descartou o apoio a Gabeira. Segundo ele, o partido toma sua decisão amanhã, mas está entre Paes e a neutralidade. O candidato do partido, Alessandro Molon, teve quase 5% dos votos válidos e deve seguir a orientação do PT.

No PCdoB, cuja candidata, Jandira Feghali, teve quase 10% dos votos válidos, o clima na cúpula também é de manter o alinhamento nacional que apóia o governo Lula, mas a decisão será tomada até sexta-feira. O mesmo prazo tem o PDT. O presidente estadual do PSB, Alexandre Cardoso, se antecipou e divulgou nota de apoio a Paes. O peemedebista recebeu a visita da secretária Benedita da Silva e de outros petistas, além do Ministro do Trabalho, Carlos Lupi (PDT).

No PSOL, que faz oposição a Lula e também não se alinha ao PSDB, a tendência é de neutralidade. Chico Alencar disse ontem que tem bom relacionamento com Gabeira, mas a aliança com os tucanos atrapalha.

Foco nas regiões com pior resultado

Apesar de a campanha só recomeçar oficialmente hoje, Paes e Gabeira já deram sinais de que estão correndo para recuperar votos nas áreas onde tiveram pior desempenho. O candidato do PMDB fez caminhada na Praça Saens Peña, na Tijuca, na Zona Norte bairro onde perdeu de Gabeira com grande desvantagem — 52,95% para o candidato do PV e 23,8% para o peemedebista. A Zona Norte reúne 8,5% dos eleitores do Rio, e teve Gabeira como vencedor: 40,74% dos votos, contra 26,5% de Paes.

Gabeira precisa conquistar eleitores na Zona Oeste, seu ponto mais fraco: e área que tem 34,5% dos eleitores cariocas. Gabeira ficou em terceiro lugar na região, com apenas 17,8% dos votos, atrás de Paes (34,5%) e do candidato derrotado do PRB, Marcelo Crivella (23%).

Para cientistas políticos ouvidos por O DIA, o resultado que levou Eduardo Paes (PMDB) e Gabeira ao segundo turno devolve ao Rio o debate político, até então quase inexistente.

Os votos em ambos os candidatos teriam representado duas ondas de recusa carioca a associar política à religião. “Foram dois tipos de voto útil. No primeiro turno, a política ficou em segundo plano e agora volta ao centro da discussão”, acredita o cientista político Cesar Romero, da PUC-Rio.

DIA DE COMEMORAÇÃO EM FAMÍLIA

Fernando Gabeira aproveitou a segunda-feira como uma espécie de dia de folga. O candidato chegou às 9h para nadar no Flamengo, clube que frequenta há 20 anos, e foi festejado por quem fazia aulas na piscina. Antes de cair na água, comentou o resultado do primeiro turno e brincou: “Não vou nadar, nadar e morrer na praia”. À tarde, Gabeira encontrou com a mulher, Neila, e as filhas, Maya e Thammy, em um restaurante em Ipanema, onde brindou com vinho o resultado no primeiro turno. Acabou ganhando o almoço como cortesia: saiu sem precisar pagar a conta de R$ 283.

Com números desfavoráveis na Zona Oeste, região na qual foi derrotado por Eduardo Paes, Gabeira pretende traçar uma estratégia especial: unir a presença física à presença na televisão. O candidato vai aproveitar seu programa para “passar a limpo” os métodos que pretende usar no governo. Na Zona Oeste, ele garantiu que estará pessoalmente. "É onde podemos crescer", admitiu. “Vamos criar uma coordenação de campanha e procurar uma forma de hospedagem, passar dois dias por semana por lá”.

Eduardo Paes, que começou o dia em reuniões e fez caminhada na Praça Saens Peña, na Tijuca, poderá ser punido pela Justiça Eleitoral por ter feito campanha. Segundo o presidente do TRE, desembargador Alberto Motta Moraes, equipes da fiscalização da propaganda eleitoral acompanharam as atividades de Paes. “Eles vão apresentar um relatório ao juiz responsável pela propaganda eleitoral no município”, explicou o desembargador. Segundo ele, pela regra eleitoral, a campanha nas ruas para o segundo turno só poderia ser iniciada hoje.

Paes poderá sofrer sanção por ter feito campanha antecipada. A punição mais comum é multa de até R$ 52 mil, mas a irregularidade também pode ser penalizada com pedido de impugnação da candidatura.

O candidato fez caminhada festiva, cumprimentado por eleitores. O jingle de campanha era executado o tempo todo. Paes não confirmou se contará com o apoio do Planalto. “O presidente demonstra um carinho enorme pela cidade. Sabe que nossa candidatura significa união,tem como prioridade o Rio. Não tenho dúvida que vamos construir esta aliança", disse.

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