O DIA ONLINE - ir para a capa
O DIA ONLINE - ir para a capa
01.08.09 às 21h47
Vote nessa notícia vote_noticia

‘Neste ano, consegui me soltar na Seleção’, diz Bruninho

POR ANA CARLA GOMES, RIO DE JANEIRO

Rio - No escurinho do cinema, ao lado da namorada, Betina, ele chorou ao assistir ao filme ‘Marley & Eu’, a história de um casal que adota um cachorro e acaba se apaixonando por ele. Mas Bruno também já chorou para todo o Brasil assistir. Há uma semana, no pódio da Liga Mundial, em Belgrado, ele não segurou as lágrimas. Era o seu primeiro título como levantador titular da Seleção de vôlei comandada pelo pai, Bernardinho, dois anos depois do Pan do Rio, quando entrou no grupo com o corte de Ricardinho. Hoje, aos 23 anos, Bruno conta, em entrevista ao ‘Ataque’, que tem muito a evoluir, mas que já está mais à vontade na Seleção como acontece na Cimed, onde foi o melhor levantador da Superliga por quatro anos.

Foto: Carlos Moraes/Agência O Dia
“Minha mãe é mais coruja. Se eu jogo mal, ela fala, mas sabe falar com mais jeitinho. Ela se emociona a cada conquista”

ODIA: Sua imagem no pódio, chorando, foi marcante. O que passou na sua cabeça?

Bruno: – Ali, foi a emoção de um brasileiro. Lembro que, quando eu era bem mais novo, assistia ao Ayrton Senna, na Fórmula-1, ao Guga, no tênis, e me emocionava com a bandeira do Brasil, com eles ganhando. Lá, no pódio, passou esse filme e fiquei emocionado porque agora aconteceu comigo.

ODIA:Você é muito emotivo?

Bruno: Eu me emociono bastante. Choro com filmes, com as conquistas do esporte. Chorei com o filme ‘Marley & Eu’, que é quase uma unanimidade. Vi no cinema, com a Betina. Lembro que o Éder (meio-de-rede da Seleção) chorou lendo o livro e eu já tinha imaginado que devia ser marcante mesmo.

ODIA:Na final dos Jogos de Pequim, você também chorou muito. Foi um dos momentos mais duros até agora?

Bruno: Sofri muito porque sabia o quanto aquele grupo merecia sair com a medalha de ouro. Muitos saíram da Seleção e não sei se voltarão. O Gustavo, o Anderson, o André Heller, o Marcelinho, enfim, todos se doaram muito e não podiam ficar manchados. Eles tinham que ser condecorados como heróis e teve gente que viu a prata em Pequim como uma mancha, um fracasso. Chorei pela tristeza de ter perdido aquela final.

ODIA:O Gustavo, aliás, ligou para o seu pai, dizendo para ele cuidar bem de você, que você é um garoto de ouro e o seu pai reconheceu que, às vezes, é muito duro com você. É assim mesmo?

Bruno: É normal, natural, pelo fato de a gente já se conhecer. Mas, na verdade, ele cobra de todos. Fiquei muito feliz com o telefonema do Gustavo e quero até falar com ele porque aprendi muito com ele. Aliás, não só com ele, mas com todos esses caras que ajudaram na minha formação.

ODIA:O Gustavo, inclusive, interferiu a seu favor quando seu pai te deu uma bronca em Pequim...

Bruno: Foi uma coisa de treino, acontece, mas como a tevê estava lá, acabou ganhando uma repercussão maior.

ODIA:Ainda sente preconceito por ser filho do técnico?

Bruno: Sempre terá, enquanto meu pai estiver na Seleção. Hoje é uma minoria, mas tem. Sei também que é difícil ter uma unanimidade. É como se o Dunga convocasse o Robinho e alguns preferissem o Adriano. É normal que as pessoas prefiram uns aos outros, só não pode levar para o lado do nepotismo porque as pessoas precisam ver que há dedicação. É claro que eu posso evoluir muito e ainda tenho que evoluir muito para chegar perto da genialidade do Maurício ou da ousadia do Ricardinho. Mas o mínimo que eu posso pedir é que as pessoas respeitem.

ODIA:A forma como ganhou a vaga no grupo, no Pan, foi muito difícil, não é?

Bruno: Não era a maneira mais fácil de entrar na Seleção. Na verdade, era a mais complicada. Mas, às vezes, as portas se abrem da maneira que a gente não espera. Mas o grupo me trouxe junto. Todos, sem exceção, chegaram em mim para dizer que aquilo aconteceu porque tinha que acontecer e eu não estava ali por acaso, mas porque merecia, que já fazia parte do grupo.
Você falou sobre a genialidade do Maurício e a ousadia do Ricardinho. Ter um pouco dos dois seria o ideal?
O Maurício tinha precisão e genialidade, venceu tudo por onde passou. O Ricardo também ganhou tudo com a Seleção, inovou mesmo, deu velocidade ao time porque tinha jogadores com características para atuar daquela forma. Mesclando os dois, seria um levantador magnífico.

ODIA:E como você se define?

Bruno: Gosto de jogar com velocidade, sou ousado, preciso melhorar a precisão. Tenho os fundamentos equilibrados, bom saque, bom bloqueio, defendo bem.

ODIA:Na Seleção, ainda falta conseguir um entrosamento maior com os atacantes?

Bruno: Isso é com o tempo mesmo. Não tinha tido oportunidade de me soltar na Seleção como fazia pelo meu clube, a Cimed porque lá eu já estava no meu ambiente. Mas, neste ano, consegui me soltar pela Seleção. Com o tempo, vou ficar mais seguro.

O DIA: Como encarou o posto de titular pela primeira vez?

Foi meio natural. Durante os treinos, foi sendo montado o time base e eu já vinha tendo oportunidade. No primeiro jogo, em São Paulo, fiquei nervoso, com o Ibirapuera lotado. Mas o time me deu muita ajuda e estou aprendendo muito com os outros levantadores, o Marlon e o Rapha.

ODIA:Deu para dormir antes da final na Sérvia, que foi uma verdadeira guerra?

Bruno: Fiquei mais nervoso na semifinal porque, se a gente vencesse aquele jogo e fosse para a final, já seria um grande passo. A gente precisava muito dessa auto-afirmação. Mas jamais tinha visto aquilo que aconteceu na final. Minha mão ficou roxa porque acertaram um isqueiro em mim. Mas não me desesperei, pensei que era hora de manter a paciência.

ODIA:Por que ainda não aceitou os convites para jogar fora?

Bruno: Neste ano, teve a proposta do time do Leandro Vissotto, o Trentino, campeão da Champions League e vice do Campeonato Italiano. Já teve o Piacenza em outro ano. Mas acho que posso evoluir e amadurecer mais, não quero ir lá para fora sem estar 100%. Sou uma pessoa que gosta de estar com a família, com os amigos, com a namorada. Não quero estar lá me sentindo sozinho, deprimido. Tenho apenas 23 anos. Quero ir quando achar que é a hora. Também não é um sonho ir para fora, mas quero fazer isso para crescer como jogador em alguns aspectos. Se bem que a próxima Superliga será tão boa ou melhor que o Italiano.

ODIA:Tem curtido o assédio das tietes?

Bruno: Tem fã-clube, tem tudo isso. Eu acho engraçado. Como ainda não aconteceu de invadir a privacidade, acho bacana e faz a gente se motivar ainda mais.

ODIA:Sua mãe dá palpites?

Bruno: Minha mãe é mais coruja, né? Se eu jogo mal, ela fala, mas ela sabe falar com mais jeitinho (risos). Ela se emociona a cada conquista e fico feliz de dar esse orgulho para ela. Acho que puxei a técnica dela.

ODIA:Já dá para se imaginar no Mundial de 2010 e nos Jogos de Londres, em 2012?

Bruno: Tento pensar em cada passo. Teremos agora o Sul-Americano, que não vai ser fácil. Tem a Argentina, que não chegou à toa à fase final da Liga. A Venezuela é sempre um time chato. E precisamos nos classificar para a Copa dos Campeões e dar entrosamento a esse time. No ano que vem, se eu for chamado, será meu primeiro Mundial, um campeonato complicado, com as melhores seleções. E Londres está bem distante ainda. Vamos pensar mês a mês.

ODIA:Você é supersticioso?

Bruno: Sou cheio de superstição. Entro sempre na quadra com o pé direito. Gosto também de número par, apesar de vestir a camisa 1. Então, na Sérvia, peguei uma mania que eu olhava para o relógio no placar eletrônico e só podia parar de olhar para ele quando estivesse marcando um tempo com número par. Então, eu ia para o saque e, quando marcava 24min10s, por exemplo, eu sacava. Outra coisa foi a camisa. A gente usava a camisa e colocava para lavar. Foi assim nos dois primeiros jogos. Na semifinal, contra a Rússia, as camisas lavadas demoraram a chegar no ginásio e já estávamos vestidos com outras quando elas chegaram. Aí, eu falei: ‘Não, vamos ter que trocar’.

 
 
 

> Mais promoções